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Humberto Werneck
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Mágicas

Não posso dizer, como Rubem Braga, que ultimamente têm passado muitos anos. Faz muito tempo que eles vêm passando.

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

19 Maio 2015 | 02h00

Mas você não se dá conta disso, do fato de estar nessa correia transportadora sem pausa que nos leva para adiante, para o fim – até que um dia, olhando-se no espelho, vê um tio-avô ou tia-avó. Nem é preciso ter sobrinhos que tenham procriado. Ainda em choque, você faz uma operação aritmética e descobre ter agora a idade daqueles parentes que tão forte impressão lhe causavam, misto de espanto, ternura e comiseração, nas reuniões de família da sua meninice: como podia ser alguém tão velho?

Era assim que eu via o tio Henrique, marido da tia Alice. Mais que qualquer outro, e eu tinha vários, ele preenchia todos os requisitos de um genuíno tio-avô de antanho, não lhe faltando os suspensórios e os óculos cujas lentes, de tão grossas, me faziam dar outro sentido ao adjetivo “garrafal”. Era neto do almirante Tamandaré, cujo busto adornava as notas de 1 cruzeiro. De quebra, cientista ilustre, formado sob as asas de Oswaldo Cruz, condição que o colocava muito acima dos mortais – que dirá deste sobrinho-neto, menino de pernas escanifradas (só minha mãe para sacar de seu baú verbal palavras como essa) que durante um tempo os pais depositavam na casa da rua Ceará nas manhãs de sábado, para que se tornasse também ele um cientista.

Tudo, no Dr. Henrique Marques Lisboa, era suavidade e acolhimento. Tinha a doçura que me parecia faltar a meu avô Hugo, seu concunhado, também médico, que não cheguei a conhecer mas de quem muito ouvi falar (inclusive no retrato duro porém verossímil que dele fez o ex-aluno Pedro Nava), um carioca que, como ele, tinha se mudado, moço, para Belo Horizonte, cidade ainda mais jovem que os dois, ambos em busca dos bons ares de que necessitavam seus pulmões tuberculosos.

Com o tio Henrique aprendi (tudo anotado num caderninho) vários números – números, sim, pois muita coisa em seus ensinamentos científicos me soava a mágica. O ovo cozido que consegue deslizar gargalo abaixo se dentro do vidro de boca estreita você joga um chumaço de algodão ardendo em fogo, tudo bem rápido, assim sem vírgulas, fazendo com que o calor dilate o vidro ao ponto de dar passagem ao ovo entalado.

Do outro lado da mesa, em momentos como esse, em que no circo a mágica se produz ante a plateia, eu levantava os olhos, mais que nunca arregalados, e percebia que também o tio Henrique tinha os dele assim, ainda que fosse apenas pelo exagero das lentes encastoadas na armação de ouro. Ao contrário do mágico, ele não fazia mesuras para seu diminuto público, mas concedia um sorriso em que se lia “está vendo?, dilatação dos corpos, não é interessante?”.

Eu também sorria e, de mim para mim, exultava, meio cúmplice, minimizando o abismo de sete décadas a me separar do “colega”. Colega, sim. Só não tinha certeza se me animaria ao ponto de adotar o figurino completo, que além do avental branco exigia, achava eu, sobrancelhas hirsutas e tufos de pelos a emergir das orelhas e narinas.

Lamento ter perdido o caderninho recheado de ciência, e mais que ele o sonho de virar cientista, cercado de pipetas e tubos de ensaio num laboratório. Com direito, certamente, a um jeito meio avoado, que nem o do tio Henrique. Já não me lembro para qual experiência ele precisou de uma cobra, mas não esqueço o dia em que a serpente teve a ideia de escapulir. Como não conseguisse encontrá-la, chamou a filha Nair (paixão lancinante do jovem Nava, que por ela se derramará em suas memórias) e lhe disse, olha, não vá alarmar sua mãe, mas a cobra sumiu. Quem se alarmou foi a filha, que por muitos dias revirou discretamente a casa, até mesmo os lençóis das camas, até que a fugitiva reaparecesse no quintal.

Um dia o tio e a tia bateram asas rumo ao Rio, e só voltei à casa da rua Ceará quando em seus fundos se instalou um clube, o Ginástico, cujo time de basquete eu ia ver jogar. A mim me tocaria assistir também, muito tempo depois, no cemitério carioca de São João Batista, à exumação do que fora o tio Henrique, falecido seis anos antes, para que o jazigo da família recebesse o tio Jorge, ouvindo dois coveiros a matraquear palpites para o Flamengo e Bahia daquela noite (deu 1 a 1). Não gostei da mágica que fez do mestre inesquecível aqueles ossos. Mas estava intacta, e ainda está, a minha adoração por ele. 

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