Magia aqui não resolve

J.K. Rowling faz estreia decepcionante no mundo adulto

MICHIKO KAKUTANI , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2012 | 03h09

Com o novo romance de J.K. Rowling, The Casual Vacancy (A Vaga Casual, em tradução livre), entramos definitivamente na "terra dos trouxas" - quase o mais longe que pudermos do mundo encantado de Harry Potter. Não há mágica no livro - nem em termos de bruxaria nem de magia narrativa.

Ao contrário, esse romance para adultos é composto por vários personagens com os mesmos atributos da tia e do tio de Harry, Petunia e Vernon Dursley: egocêntricos, mesquinhos, esnobes e julgadores, cujas histórias nem cativam nem empolgam.

Infelizmente, o mundo real que ela delineou nas páginas do livro é intencionalmente banal, tanto que foi rotulado negativamente não só como decepcionante, mas também como bobo.

O enredo, que acontece no pequeno vilarejo fictício de Pagford, na Inglaterra, é uma crônica sobre o desastre político e pessoal causado pela morte inesperada de um membro do conselho paroquial local chamado Barry Fairbrother. É como se a história fosse uma novela sombria que descreve a vida provinciana restrita e circunspecta.

Esse definitivamente não é um livro para crianças: suicídio, estupro, vício em heroína, espancamentos e considerações sobre patricídio permeiam as páginas da obra; há uma cena de sexo em um cemitério, uma grotesca descrição de um preservativo usado e uma cena alarmante de abuso sexual doméstico.

O romance tem momentos de autêntico drama e alguns flashes aqui e ali de humor, mas termina de forma desanimadora. Mais duas mortes repentinas e cruéis ocorrem na história, deixando o leitor atrapalhado com algo que nada tem a ver com as emoções evocadas pelo desfecho da série Harry Potter.

É claro que muitos autores já criaram retratos da vida provinciana que captam a essência do cotidiano com grande profundidade emocional. Isso, infelizmente, não acontece neste livro. Enquanto o universo de Harry Potter foi ricamente imaginado e complexamente detalhado, assim como a terra média de J.R.R. Tolkien ou a Oz de L. Franck Baum, Pagford é estranhamente genérica: uma aldeia de brinquedo, em que os tetos das casas somem para revelar adultérios, discordâncias matrimoniais e conflitos generalizados entre as pequenas pessoas. É como se escrever sobre o mundo real tenha inibido a imaginação milagrosamente inventiva de Rowling e a privado da tensão entre o mundano e o encantado, constrangendo a sua habilidade de criar uma história com duas ou até mesmo três dimensões.

Conforme a história de The Casual Vacancy se desenrola e Rowling brinca com as consequências dos segredos mais sombrios de seus personagens, a narrativa adquire movimento, mas isso só ocorre depois de muitas páginas percorridas. Em alguns assuntos, The Casual Vacancy aborda temas que aparecem nos livros de Harry Potter: as perdas e os fardos da responsabilidade que vêm com a idade adulta e a inevitável ideia da morte.

Não terminamos o livro com a sensação de termos descoberto as entrelinhas dos personagens de Vacancy da mesma forma como acontece com os amigos e inimigos de Harry Potter. Também não finalizamos a obra sabendo sobre como o passado deles e de suas famílias influenciou suas vidas atuais.

Obviamente, J.K. Rowling teve sete livros para mapear as complexidades do mundo dos bruxos em Harry Potter. O leitor deve torcer para que a autora não tente mostrar o "mundo dos trouxas" de Pagford em algum outro volume, mas, em vez disso, tente partir para algo mais convincente e focado no futuro. / TRADUÇÃO DE FERNANDO OTTO

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