Magia aqui não resolve

Com o novo romance de J.K. Rowling, The Casual Vacancy (A Vaga Casual, em tradução livre), entramos definitivamente na "terra dos trouxas"

Michiko Kakutani, do The New York Times,

29 de setembro de 2012 | 18h13

 

Com o novo romance de J.K. Rowling, The Casual Vacancy (A Vaga Casual, em tradução livre), entramos definitivamente na "terra dos trouxas" - quase o mais longe que pudermos do mundo encantado de Harry Potter. Não há mágica no livro - nem em termos de bruxaria nem de magia narrativa.

Ao contrário, esse romance para adultos é composto por vários personagens com os mesmos atributos da tia e do tio de Harry, Petunia e Vernon Dursley: egocêntricos, mesquinhos, esnobes e julgadores, cujas histórias nem cativam nem empolgam.

Infelizmente, o mundo real que ela delineou nas páginas do livro é intencionalmente banal, tanto que foi rotulado negativamente não só como decepcionante, mas também como bobo.

O enredo, que acontece no pequeno vilarejo fictício de Pagford, na Inglaterra, é uma crônica sobre o desastre político e pessoal causado pela morte inesperada de um membro do conselho paroquial local chamado Barry Fairbrother. É como se a história fosse uma novela sombria que descreve a vida provinciana restrita e circunspecta.

Esse definitivamente não é um livro para crianças: suicídio, estupro, vício em heroína, espancamentos e considerações sobre patricídio permeiam as páginas da obra; há uma cena de sexo em um cemitério, uma grotesca descrição de um preservativo usado e uma cena alarmante de abuso sexual doméstico.

O romance tem momentos de autêntico drama e alguns flashes aqui e ali de humor, mas termina de forma desanimadora. Mais duas mortes repentinas e cruéis ocorrem na história, deixando o leitor atrapalhado com algo que nada tem a ver com as emoções evocadas pelo desfecho da série Harry Potter.

Um mundo genérico

É claro que muitos autores já criaram retratos da vida provinciana que captam a essência do cotidiano com grande profundidade emocional. Isso, infelizmente, não acontece neste livro. Enquanto o universo de Harry Potter foi ricamente imaginado e complexamente detalhado, assim como a terra média de J.R.R. Tolkien ou a Oz de L. Franck Baum, Pagford é estranhamente genérica: uma aldeia de brinquedo, em que os tetos das casas somem para revelar adultérios, discordâncias matrimoniais e conflitos generalizados entre as pequenas pessoas. É como se escrever sobre o mundo real tenha inibido a imaginação milagrosamente inventiva de Rowling e a privado da tensão entre o mundano e o encantado, constrangendo a sua habilidade de criar uma história com duas ou até mesmo três dimensões.

Conforme a história de The Casual Vacancy se desenrola e Rowling brinca com as consequências dos segredos mais sombrios de seus personagens, a narrativa adquire movimento, mas isso só ocorre depois de muitas páginas percorridas. Em alguns assuntos, The Casual Vacancy aborda temas que aparecem nos livros de Harry Potter: as perdas e os fardos da responsabilidade que vêm com a idade adulta e a inevitável ideia da morte.

Não terminamos o livro com a sensação de termos descoberto as entrelinhas dos personagens de Vacancy da mesma forma como acontece com os amigos e inimigos de Harry Potter. Também não finalizamos a obra sabendo sobre como o passado deles e de suas famílias influenciou suas vidas atuais.

Obviamente, J.K. Rowling teve sete livros para mapear as complexidades do mundo dos bruxos em Harry Potter. O leitor deve torcer para que a autora não tente mostrar o "mundo dos trouxas" de Pagford em algum outro volume, mas, em vez disso, tente partir para algo mais convincente e focado no futuro.

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