Máfia não cala Saviano

Ele chega em um cortejo de três carros, todos blindados. Primeiro são os seguranças que saem dos veículos. Logo depois, um deles faz um sinal positivo e o escritor e jornalista italiano Roberto Saviano é autorizado a sair. Autor do best seller Gomorra (Bertrand Brasil), em que conta os bastidores da máfia de Nápoles, Saviano revela ao Estado em Genebra como sua vida se transformou por conta de sua obra. "Vivo como um condenado", desabafa. A obra perturbadora também chegou ao cinema, com o mesmo nome e dirigida por Matteo Garrone, e levou o grande prêmio de Cannes, em 2008.

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2010 | 00h00

O autor, que vai fazer 31 anos em setembro, não nega que se sente "em uma prisão" e faz comparações entre o que está passando e a ameaça de morte sofrida por Salman Rushdie, que após publicar Versos Satânicos nos anos 80 foi condenado por uma fatwa declarada pelo iraniano Aiatolá Ruhollah Khomeini.

Vinte anos depois, a condenação de Saviano é tão explícita como a dos radicais muçulmanos. De forma permanente, são sete guarda-costas que o acompanham desde que a Máfia prometeu matá-lo. "Rushdie um dia me disse que eu precisava começar a construir minha liberdade. Mas que isso teria de partir de mim, de dentro de minha alma para ser livre", contou.

"Muitas pessoas me aconselharam a sair da Itália e mudar de identidade. Os governos da Finlândia e Noruega me propuseram que eu me mudasse para lá e que eles me protegeriam. Mas preferi ficar na Itália. Só teria escrito o que escrevi porque vivi na região controlada pela máfia. Decidi ficar para mudar as coisas. O meu consolo é que escrever é resistir."

Sua família, porém, foi obrigada a sair do sul da Itália. Vive em um endereço sigiloso, com nova identidade e sob escolta policial. O jovem Saviano, que se inspira em Truman Capote quando escreve, admite que a internet o salvou do isolamento e conta como sente falta das festas. "Como não posso ir a um bar, o Facebook é o meu local de encontro com amigos."

Vendas. Seu editor previa que não mais de 5 mil livros seriam vendidos quando Saviano escreveu a obra há quatro anos, com apenas 26 anos. Hoje, já atingiu 5 milhões de obras vendidas em 50 países. E com a explosão de vendas vieram as ameaças. "A cada seis meses, juízes me dizem que interceptaram um plano para me matar. O pior é que ainda me acusam de estar falando sobre isso e andar protegido apenas para vender livros. Isso é que me destrói. Vivo como um condenado, mas alguns dizem que é uma estratégia para ganhar dinheiro."

"A Camorra nunca teve medo de mim. O que temem são meus leitores. A máfia não gosta de ser notícia. Meu livro é a prova de que as palavras ainda têm muito poder", afirma. "A máfia é obcecada pelo silêncio. É assim que operaram. Desde que eu nasci, 4 mil pessoas foram mortas apenas na minha região por causa da máfia. Vale lembrar que a máfia não mata apenas com armas. Ela destrói a vida de uma pessoa e sua credibilidade. Vi muitas vidas destruídas", diz.

Segundo ele, a organização hoje movimenta cerca de 100 bilhões na Itália. "É um dos maiores setores de nossa economia e tem investimentos da América do Sul à Escócia, passando pelo Leste Europeu e África", afirma.

Brasil. Pelas investigações feitas por ele, a presença do Brasil na estrutura da Máfia é real. Saviano conta que está preparando sua nova obra, que vai tratar da conexão entre a máfia e diferentes grupos criminosos pelo mundo, principalmente os brasileiros.

"A Máfia está no Brasil, com investimentos e de forma física. O País é uma plataforma importante da atuação e operação desses grupos", informa ele.

"Em sua obra já lançada, Saviano revela como líderes da Camorra usaram o Brasil já a partir dos anos 80. "Esse fenômeno não é novo. Mas a relação entre os grupos criminosos está cada vez mais sofisticada."

Nova obra. Roberto Saviano evita dizer quando seu novo livro chegará ao mercado. Mas sabe que se já tem problemas de segurança por ter escrito Gomorra, logo deverá enfrentar mais dificuldades.

"O crime pode ser vencido. Mas não será uma batalha local. Esses grupos hoje são multinacionais", avalia. Para ele, a grande disputa nos próximos anos será sobre quem controlará o tráfico de drogas para a China, que "não conseguirá ficar fora desse mercado".

Mesmo com seu sucesso mundial, Roberto Saviano não esconde que se sente pressionado em seu país. Há algumas semanas, enfrentou uma polêmica com o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, que o acusou de estar prejudicando a imagem do país ao escrever sobre a Máfia. "É um paradoxo dizer que o culpado pela reputação da Itália sou eu. O que Berlusconi diz é que se escrevo sobre a Máfia, estou promovendo-a. Será que então escrever sobre o câncer é promover a doença?", questiona.

"O problema não é Berlusconi. Ele é o resultado de um processo de anos da sociedade italiana. No imaginário do sul da Itália, quando critico a Itália, estou criticando minha terra e isso é inaceitável", explica.

O embate pode fazer com que ele deixe sua editora, já que a empresa tem como um de seus principais acionistas o próprio primeiro-ministro. "Perguntei a meus editores se eu continuaria a ter total liberdade e, por enquanto, ainda não recebi nenhuma resposta."

Ele admite, porém, que sair da editora seria dar razão a Silvio Berlusconi e deixar a empresa apenas para escritores que apoiem o governo. "Estou numa encruzilhada." Mais uma.

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