Mafalda chega à tevê colorida e muda

Há 27 anos, Mafalda e sua turma se despediam das páginas dos jornais. Desde então, a garotinha constestadora só reapareceu em ocasiões especiais, como campanhas da ONU pelos direitos das crianças. Suas histórias foram traduzidas para mais de 26 idiomas e ganharam dezenas de livros. Mesmo assim, permaneceu intacta. Seu criador, o argentino Joaquín Salvador Lavado, o Quino, rejeita qualquer tipo de adaptação para teatro e cinema e não aceita desenhá-la para campanhas publicitárias.Mas uma concessão ao menos ele fez. Em 1993, levou Mafalda para a televisão e produziu 104 curtas animados de um minuto. Inéditas no Brasil, as tirinhas vão ao ar diariamente de meia em meia hora a partir de domingo no canal a cabo Fox Kids. Não há um horário certo para Mafalda surgir na tela. Assim que começa a programação, ela aparece. As histórias em quadrinhos foram adaptadas para a TV por Quino e pelo amigo Juán Padron, que dirigiu os episódios e também trabalhou com o cartunista em Quinoscopios, outra série de nove curtas-metragens com suas tiras de humor.Tão tagarela nas HQs, Mafalda ficou muda na TV porque os fãs não gostaram de sua voz. "Isso é curioso porque nas tirinhas os personagens não têm voz", diz o cartunista.Mas quem pensa que vai conferir novas aventuras está enganado. A histórias conservam a idéia original das tirinhas criadas para jornal. "A diferença é que na TV o ritmo é completamente diferente e mais direto", explicou. Diferentemente dos quadrinhos, que são baseados nos diálogos, as histórias na TV possuem muito mais apelo visual. "Assim, resolvi o problema do idioma, que se tornou universal, e da voz, porque cada um imagina o que quiser ", diz Quino. "Mas o espírito crítico e contestador da garotinha permanece o mesmo", completa.Outro precedente aberto por Quino foi utilizar a cor - o cartunista ainda desenha em preto-e-branco. "A Mafalda que eu criei foi em preto-e-branco; mas esta é a única exceção que faço porque são desenhos animados e, por isso, continuam sendo desenhos."O fato dos episódios irem ao ar em um canal dedicado ao público infantil não incomoda o cartunista. "Me surpreende que agora as crianças leiam Mafalda; eu nunca desenhei para o público infantil mas eles se interessam e a compreendem agora por causa da quantidade de informação que recebem da televisão" analisa.Para infelicidade de quem aguarda por novas tiras, Quino é categórico ao repetir a resposta que dá há anos: "Não haverá novas tiras nem para TV nem para os quadrinhos; os problemas do mundo são os mesmos mas eu não; quando criava Mafalda tinha 35 anos e agora tenho quase o dobro, portanto, meus personagens também não poderiam ser os mesmos." E completa: "Pode ser que algum dia continuemos a série Quinoscopios para a TV, mas no momento é difícil."Questionado sobre como Mafalda seria hoje, respondeu: "Não importa se seria uma dona de casa medíocre ou uma guerrilheira, mas sim que continua atual." Se ela comeria no McDonald´s? "Os árabes dizem que as pessoas são filhas de seu tempo, não de seu país; nunca se sabe o que será de nossos filhos."

Agencia Estado,

04 de agosto de 2000 | 16h11

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.