Leo La Valle/EFE
Leo La Valle/EFE

Maestro Zubin Mehta ensaia com a Sinfônica de Heliópolis

Regente fez rir com aula pouco ortodoxa; concerto será nesta quarta-feira no Teatro Municipal

ROBERTO NASCIMENTO - O Estado de S.Paulo,

20 de agosto de 2012 | 03h07

Dedos inquietos desciam e subiam escalas, antecipando, ontem, a chegada de Zubin Mehta ao Instituto Baccarelli. Em meio à cacofonia politonal costumeira de um pré-ensaio - ontem ainda mais turbulenta por conta da agitação que uma visita do maestro causa entre a moçada da Sinfônica de Heliópolis -, ouvia-se de tudo. Os temas de Super-Homem e de Guerra nas Estrelas soavam ao mesmo tempo que trechos do cânone erudito. Violinos esmerilhavam. Baixos roncavam. Até que Mehta subiu ao pódio, afinou a Sinfônica, e começou a refinar as violas e violinos de um trecho da Sinfonia Fantástica, de Berlioz, que rege com a moçada de Heliópolis nesta quarta-feira, no Teatro Municipal.

"Essa música é antinatural. É um delírio. O cara está deitado lá, fumando haxixe. Cada movimento é como um devaneio, e ele acorda em uma lugar diferente. Por isso, os acentos não são naturais. Isso não é Beethoven", ensinou, arrancando risadas da moçada e deslocando a rigidez rítmica da Sinfônica.

A eletricidade causada pela vinda de Zubin Mehta é palpável nos corredores do instituto. Músicos agradecem a Deus em posts no Facebook. Familiares comparecem ao ensaio. No sábado, o maestro foi recebido com a abertura da ópera Fosca, de Carlos Gomes, tocada com o mesmo entusiasmo que os músicos mostraram durante o ensaio.

"Há 7 anos, viemos ao Brasil e presenciamos um milagre. Em pé, no mesmo lugar, com lágrimas nos olhos, assistimos eles tocarem pela primeira vez. Lembro que foi também uma abertura de Carlos Gomes", disse o maestro e patrono do grupo, no sábado, quando foi homenageado com o nome de uma nova sala, a maior do Instituto Baccarelli, assim que chegou. Sua passagem pelo Brasil inclui concertos com a Filarmônica do Maggio Musicale Fiorentino, com qual se apresenta hoje na Sala São Paulo, e com a Sinfônica de Heliópolis, que rege no Municipal. No programa da orquestra, além da Sinfonia Fantástica de Berlioz - que Mehta regeu no ano passado, em Paulínia, quando juntou a Sinfônica de Heliópolis com Filarmônica Jovem de Israel -, As Bodas de Fígaro, de Mozart, e o Concerto Para Violino em Ré Maior, de Beethoven, que terá como solista o violinista lituano Julian Rachlin.

Durante a visita de Mehta ao instituto, foi confirmada a contratação de Julian Rachlin como regente convidado principal do grupo. "Julian certamente elevará o nível da Sinfônica", disse, após a apresentação. "É disso que as orquestras de base precisam. Alguém próximo, que possa inspirar", completou, com uma ressalva: "Mas só um grande professor não basta. Precisamos aprimorar o ensino individual dos músicos. Temos o mesmo problema com a minha fundação em Bombaim. São 250 alunos, mas faltam professores que possam dar mais atenção a cada um deles. Não precisam ser fantásticos, como Julian, mas precisam ter boa formação para ensinar uma base técnica mais sólida", explicou.

Em conversa com Rachlin, que ganhou o respeito dos músicos pela intensidade com que conduz suas aulas - principalmente as voltadas para a sessão de cordas -, a atitude é a mesma. "São tantos detalhes que precisamos melhorar quando tratamos do naipe de cordas. A velocidade do arco. O posicionamento do braço, do punho, das mãos... Até a forma com que trabalhamos as juntas para tocar determinada nota, em determinada frase, tem de ser estudada", explicou o violinista lituano, que foi criado na Áustria e cuja parceria com Mehta data dos anos 1990, quando estreou na filarmônica de Tel-Aviv. Segundo ele, o trabalho ainda demorará para dar frutos. "Na música, progresso se mede em anos, não em meses", respondeu, quando indagado sobre suas aulas. Mas, sua influência já é palpável entre os músicos da Sinfônica: "Quando ele está regendo, existe um peso maior", conta a violinista Juliana Cavalcanti, de 24 anos. "Aprendemos como uma sessão de cordas que toca junta, com equilíbrio, impressiona muito mais do que um cara que detona tocando Paganini", disse.

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