Léo Azevedo/AE
Léo Azevedo/AE

Maestro Letieres Leite fala sobre o diálogo entre os ritmos afro-brasileiros

Orkestra Rumpilezz se apresenta com o craque do sax tenor, Joshua Redman, no Sesc Pompeia

ROBERTO NASCIMENTO - O Estado de S.Paulo,

24 de agosto de 2012 | 03h09

No panorama de big bands poliglotas existem misturas, misturebas e o híbrido de jazz e ritmos afro-brasileiros concebido por Letieres Leite e sua Orkestra Rumpilezz, que se destaca entre as fusões livres - e muitas vezes ineficazes - que se costuma ouvir de orquestras que encontram a world music. Em suas composições, lançadas no único disco da Orkestra, de 2009, há um respeito pela ancestralidade dos toques de terreiro que possibilita uma conversa viva entre Ellington e Oxum (moderada por Dorival), sem que os dois se dispersem. Portanto, como sempre, nada menos que uma sagaz receita rítmica deve ser esperada do show que a Rumpilezz faz com o craque do sax tenor, Joshua Redman, sábado e domingo, no Sesc Pompeia.

Letieres explica: "Tocamos Mantra 5 em opanijé para Omolu", diz, referindo-se ao orixá de capuz de palha, ligado à terra e à morte, cujo toque a Rumpilezz encaixa na composição do saxofonista. "Nunca imaginei que opanijé pudesse ser usado em um contexto desses. Descobri observando a melodia, os acentos e a intenção da síncopa", reflete, por telefone de Salvador, como se tivesse feito uma descoberta, não uma invenção. "O balaio de ritmos que temos por aqui, esta herança das nações do candomblé, é muito vasto. Me sinto ainda no maternal. Toco um pouco de Ketu, de Jeje, de Angola", explica, sobre as diferentes nações, ou vertentes de candomblé, cada uma com seus ritmos específicos, usados em rituais para enaltecer os orixás.

Desde que Letieres e Joshua se encontraram em São Paulo, no BMW Jazz Festival do ano passado, o maestro planeja a apresentação. "Conheço a música dele desde quando eu morei na Europa. Ele me fez o convite e começamos a trocar ideias por e-mail", conta Letieres. Os dois trocaram discos, agendaram o encontro e, há dois meses, Letieres ensaia a Orkestra para executar os arranjos para Jazz Crimes, Hide and Seek e Mantra 5, composições de Joshua Redman.

"Ele ficou curioso para fazer esse tipo de imersão na música afro baiana. Quis aprender os toques. Presta atenção nos detalhes", conta Letieres, que levou Joshua a um terreiro Jeje e fez uma tarde inteira de vivência com o saxofonista nos atabaques. "Não é fácil. Nós temos a mesma origem étnica. Viemos todos da África, mas a diáspora rítmica é muito distinta. Por isso, é bem provável que um músico de lá não consiga tocar as coisas de cá, e vice versa", explica.

Além das três músicas de Joshua arranjadas por Letieres, o show terá as composições Aláfia e Anunciação, da Rumpilezz sobre quais o saxofonista improvisa, mais ciente do mecanismo rítmico depois das imersões, dos ensaios e do show que fez em Salvador, nesta quarta-feira.

"Para nós, em contrapartida, há o contato com um músico do nível dele, pois um dos alicerces da Rumpilezz é a música improvisada", conta, sobre o brilhante saxofonista californiano que arrebentou em seus dois shows no Auditório Ibirapuera, no ano passado. Mesmo que se abra às possibilidades do jazz, é nítida, em conversa, a atenção à tradição com que Letieres projeta sua música. Quando a reportagem pergunta se o maestro pensou em adaptar alguns dos cantos dos orixás para o show, como já foi feito por algumas orquestras afro cubanas com a santeria, o candomblé caribenho, a resposta é seca: "Nenhuma melodia da Rumpilezz é ligada à religião do candomblé. Eu não tive autorização para mexer com isso. Eu apenas desconstruo e reconstruo ritmos. Se eleger um orixá como base de uma composição, tudo naquela música virá das variações rítmicas pertinentes àquele orixá", explica.

A desconstrução a que o maestro se refere é o equivalente de um quadro cubista. Os mais simples ritmos quaternários que estamos acostumados a ouvir desde o berço são entortados para formar células assimétricas, formando os tipos de ciclos irregulares que se encontram, por exemplo, nas composições do disco Time Out, de Dave Brubeck. "Mas isto é apenas teoria", diz Letieres. "O mais importante é que aprendemos cantando os ritmos, através de história oral, como todos os ritmos são transmitidos no terreiro. Foi isso que expliquei para Joshua. O jazz se escreve de um jeito, mas se lê de outro", explica.

A visibilidade de Letieres no cenário instrumental vem do respeito que o maestro tem, tanto no meio pop quanto no meio jazzístico. Ao mesmo tempo que realiza shows com Joshua Redman e toca com seu Quinteto Rumpilezz, o maestro produz discos de Mariana Aydar, Lucas Santanna, Márcia Castro, e outros. O que reforça a tese: se Letieres é um tradicionalista em seu respeito aos ritmos, sua música dialoga também com o interesse recente do público jovem por estéticas afro-fílicas, como os afrobeats e afro-sambas tão em voga em festas e shows paulistanos. "São ciclos da música brasileira", reflete. "Nos anos 60 tivemos a mesma coisa, com Baden e Vinicius. Na música instrumental, isto também já aconteceu, com a Orquestra Afrobrasileira, de Abigaíl Moura, nos anos 40", completa.

LETIERES LEITE E JOSHUA REDMAN

Sesc Pompeia. Teatro. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700. Sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 8/ R$ 32.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.