Maestro defende obras de novos autores

Para Kent Nagano, que rege hoje e amanhã na Sala São Paulo, sem peças atuais não há Beethoven

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2013 | 02h07

A fala tranquila e serena quase disfarça o comentário incisivo do maestro. "Sem a música nova, não há Beethoven, é simples", diz Kent Nagano. E explica: "Se a criação contemporânea não é estimulada, as obras do passado perdem muito do seu sentido, viram peças de museu, parte de uma tradição sem presente e sem futuro".

Nagano rege hoje e amanhã, na Sala São Paulo, a Sinfônica de Montreal, orquestra da qual é maestro titular, abrindo a temporada de assinaturas da Sociedade de Cultura Artística. Hoje, toca Wagner, Liszt e Brahms; amanhã, Wagner, Berlioz, Ravel e Stravinski. Nada de música nova - e, em entrevista à imprensa canadense na semana passada, ele explicou que isso se deveu à escolha feita pelos promotores da turnê latino-americana da orquestra.

Ainda assim, ele vê nas peças escolhidas uma relação com a história da Sinfônica de Montreal. "Vários mundos deságuam nessa orquestra. Há a influência clara francesa, uma ligação com o repertório russo e também com a grande tradição da música romântica europeia", ele diz ao Estado.

Nagano é um dos nomes mais celebrados da regência atual. Diretor da Ópera de Munique, ele assume em 2015 o mesmo posto em Hamburgo, e vai passar a comandar também os músicos da Philharmonia Orchestra, em Londres. Na bagagem, vai levar leituras fluentes do repertório tradicional - e o gosto pela inovação. Basta lembrar que, nos últimos anos, foi responsável pela encomenda de óperas de autores como Wolfgang Rihm ou Unsuk Chin; e que, no universo sinfônico, acaba de estrear peças de Kaija Saariaho e Peter Eötvös.

A preocupação com o novo repertório, ele conta, está ligada à sua própria formação. Filho de um arquiteto e uma microbiologista, que abandonaram as carreiras para cuidar da fazenda da família na Califórnia, Nagano começou na música estudando composição. "Meu treino formal era, portanto, realizado com novos autores. Mas, como ouvinte, meus gostos eram tradicionais. Talvez por isso, os dois universos tenham convivido desde cedo em minha mente e passei a entendê-los como parte de um mesmo processo", diz. "No fundo, para mim, a música é boa ou ruim. E não há outros rótulos."

Convivência parece ser a palavra-chave na trajetória do maestro, que lembra como, na infância em Morro Bay, costumava admirar o modo como a vastidão do oceano convivia com a paisagem montanhosa do continente. Talvez daí venha também a recusa em aceitar diagnósticos dados como certo sobre o mundo da música. Quando fala em ópera, por exemplo, questiona a noção de que se trata de uma forma de arte morta, incapaz de atrair novos públicos. "Basta olhar as plateias nos últimos dez anos, há uma mudança", afirma. "Talvez eu seja otimista. Mas sabe quando dizem que vivemos em um mundo saturado, com muitas informações visuais, com a lógica do videogame? Pois a ópera, a maneira como ela provoca a imaginação das pessoas, pode atrair esses públicos, por que não?"

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