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Maestria técnica aproxima narrativa de Alice Munro da estrutura dos sonhos

Tornou-se moeda corrente comparar obra da canadense à de Chekhov

Vinicius Jatobá - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2013 | 19h11

Acontece: há momentos em que premiar é ser premiado. Quando Alice Munro for a Estocolmo receber seu Prêmio Nobel de Literatura, a maior gratidão deve ser da própria Academia Sueca, pois essa escolha devolve à láurea centenária, tão acusada de critérios extraliterários, o encanto ingênuo do narrativo e da imaginação. Alice Munro pode ser encarada, em um vaticínio crítico que virou moeda corrente, como o Chekhov canadense. A frase, tão poderosa e assertiva, é ela mesma uma pequena resenha. Porém, seria também certo investir no anacronismo irracional, divertido e plácido, de afirmar que Chekhov foi a Munro russa de seu tempo. Fé absoluta que Chekhov encontraria nesse gracejo um elogio. E isso porque suas obras realmente andam lado a lado.

Em Chekhov, o grande tema é o mascaramento, e sua galeria de personagens prolixos e desenvoltos falam e agem mais para esconder sob o escudo da etiqueta suas verdadeiras faces. É por isso que, nos contos do russo, profissões e posições sociais são essenciais: fornecem um arsenal de gestos, um léxico e uma linguagem a explorar. A maior parte de suas pérolas, sejam comédias ou dramas, são frutos do desencontro entre papel e ação social.

Uma personagem fala como não deveria, ou se cansa e, por um momento, revela sua face – muitos de seus contos e peças são descrições do esforço das personagens em recuperar esse conforto perdido. Muito dessa descrição caberia perfeitamente para abordar o trabalho de Munro. No entanto, a partir de Open Secrets, de 1994, a geografia das narrativas de Munro tornam-se diferentes: são mais cartografias do imaginário, onde o que não acontece, os efeitos sentimentais e mentais provocados pelos dramas e entravados na consciência da personagem, passam a ser mais importantes. Sem abandonar o registro realista, cinzelado, direto, marca regular de sua elegante prosa, seus livros de maturidade ainda investem em uma papel retratista para a literatura, e seguem alimentando um nítido arco narrativo centrado na reflexão das mudanças radicais no lugar da mulher e da percepção do feminino na sociedade canadense da segunda metade do século passado, rastreando meio século de redefinições dos papéis sociais e afetivos entre os gêneros.

A grande diferença é como opera a consciência das personagens em algumas de suas obras, em que aproxima as narrativas da estrutura de sonhos. Tramas morosas que vão acumulando, camadas sobre camadas, informações, fatos, cenas. Aparentemente sempre avançando, mas assumindo uma poética de interrupção suave e macia, na qual a duração de cada gesto é distendida, cenas são repetidas e fatos, refutados, sem jamais perder o confiante registro tátil e realista. Uma maestria técnica tão brilhante que passa despercebida uma vez que o tom da prosa, desnuda de índices retóricos de complexidade, tem legibilidade pedestre e frugal. É notável que a Academia Sueca tenha se dado a oportunidade de receber em seu panteão tão ilustre diva e mestra. A literatura, e os leitores, agradecem.

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO

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