Giuseppe Cacace/AFP
Giuseppe Cacace/AFP

Madonna no lido

A pop star exibe faceta de diretora com o longa W.E., sobre 'o caso de amor do século'

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / VENEZA

Se você assistiu a O Discurso do Rei, sabe que o monarca gago assumiu o trono quando seu irmão, Edward VIII, renunciou para se casar com a divorciada norte-americana Wallis Simpson. Esse caso, chamado pelas revistas de celebridades da época de "o caso de amor do século", foi o tema escolhido por Madonna para W.E., que passa fora de concurso em Veneza.

"Falou-se muito de tudo a que Edward renunciou para ficar com Wallis; mas, de certa forma, a mulher foi esquecida. Ela também deve ter renunciado a muita coisa e esse é o lado que mais me intrigava nessa história", disse a pop star, superséria agora em sua persona de cineasta.

O filme usa um recurso para contar essa história. Trabalha em dois tempos, um no presente, com uma mulher mal-amada, Wally (Abbie Cornish), em outro, nos anos 1930, com o love affair entre Wallis (Andréa Risenborough) e Edward (James D"Arcy). Wally é casada com um psiquiatra alcoólatra e violento. O casal não tem filhos. A mulher consola-se num processo de identificação com Wally e tudo o que ela representa em termos do mito da renúncia amorosa.

Madonna justifica esse expediente das histórias paralelas em nome da subjetividade: "Me interessei por esse romance épico e queria entendê-lo, mas a verdade é algo subjetivo. O importante é que o espectador saiba que esse é o meu ponto de vista. Por isso criei a história contemporânea, porque é a vida da duquesa Wallis contada através dos olhos de Wally." O romance se duplica em duas épocas e em duas formas distintas. Na história original, o rei se apaixona pela plebeia; no presente, a mulher infeliz cai de amores por um guarda de segurança russo (Oscar Isaac), a serviço da Sotheby"s.

Fica bem claro que se a Wallys do presente é um alter ego da diretora Madonna, mas a conexão maior da pop star é com Wallis Simpson. "Ela tem mesmo algo em comum comigo, que é a vida de celebridade. Quando se é famoso, colam estereótipos em você e não há o que fazer para retirá-los." Madonna sabe do que fala. Uma das lendas urbanas de Veneza (nem por isso menos verdadeira) diz que ela reservou e manteve bloqueados quartos em vários hotéis de luxo da cidade apenas para despistar os paparazzi. Por onde passa, provoca loucura. Fãs se atiram sobre ela e têm de ser contidos pelos seguranças. Deve ser uma condição bem solitária, a de pop star.

Propensa, portanto, a certa reflexão, ainda mais quando a celebridade em questão chega a certa idade (Madonna nasceu em 1958, faça as contas). Por que escolheu uma personagem daquela época para retratar? Madonna responde: "Era um mundo de luxo e beleza, mas também de decadência. Queria espelhar esse mundo porque o nosso é igual. De beleza, decadência e glamour. Respiramos um ar um tanto rarefeito. Isso não pode garantir a felicidade de ninguém".

Pena que essas preocupações não encontrem tradução na tela. A ida e vinda no tempo não contribui para explicar o que quer que seja da condição de Wallis Simpson. E a Wally do presente é apenas personagem de um melodrama um tanto banal. Fica-se com uma impressão de pura artificialidade. Na sessão da manhã, W.E. foi recebido com aplausos mornos e algumas vaias.

VENEZIANAS

Finesse

Na cerimônia de abertura, o presidente do júri, Darren Aronofsky, apontou para George Clooney, sentado na plateia, e falou em bom som ao microfone: "Nessa mesma cadeira onde você está, no ano passado, eu, sentado entre o presidente Giorgio Napolitano e Natalie Portman, fiz pipi". A reação do público foi gélida.

Overdose

Kate Winslet é presença mais do que frequente no Lido. Além de integrar o elenco de Carnage, Polanski, estrela Mildred Pierce, de Todd Haynes, série da HBO cujos capítulos estão sendo exibidos em salas mais badaladas do festival.

Cortes

Marco Bellocchio, que recebeu um Leão de Ouro pela carreira, exibe sua versão de Em Nome do Pai, seu iconoclástico filme de 71. Com cortes: "Tirei diálogos repetitivos, marxistas demais", disse.

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