Madonna e o amor (im)perfeito

Em relação à linguagem e reflexão, é o filme mais ambicioso da popstar

LUIZ CARLOS MERTEN, , O Estado de S.Paulo

09 de março de 2012 | 03h08

Alek Keshishian está começando a escrever o novo filme de David Fincher, após Millenium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres. Diretor do documentário Na Cama com Madonna, de 1991, ele escreveu, com a popstar, W.E. - O Romance do Século, que estreia hoje. Retificando - na civilização da imagem, o rótulo "popstar" tende a carregar uma conotação pejorativa. É melhor referir-se a ela como "a artista". "Engana-se quem pensa em Madonna como uma baladeira. Quando ela não está em turnê, fica em casa toda noite, vendo filmes. É a maior cinéfila que conheço."

E Keshishian diz mais - "Ela conhece mais filmes que você e eu juntos. Não vou dizer que é uma especialista no cinema francês por volta de 1960, mas são seus filmes favoritos. Em seu iPad, durante a realização de W.E., ela tinha cenas de cerca de 50 filmes que podiam ser referências. Boa parte deles era de filmes de Godard." Madonna pretensiosa, vai pensar o leitor. Keshishian corrige - "É ambiciosa". W.E. é um filme ambicioso - como linguagem, reflexão. Além de Jean-Luc Godard, o iPad da artista incluía outro filme que foi fundamental em W.E., Crescei-vos e Multiplicai-vos, The Pumpkin Eater, de Jack Clayton.

É um filme sobre a crise de um casal, escrito pelo futuro Prêmio Nobel Harold Pinter e interpretado por Anne Bancroft e Peter Finch. "Nenhum crítico sacou. A maioria não tem cultura. Tenho certeza de que Pauline Kael teria percebido." O roteirista não está defendendo seu pão. Ninguém é mais crítico que ele. "Não estou muito seguro de que o que era experimental na nouvelle vague seja a melhor opção estética para o que não deixa de ser uma história de amor tradicional, a de Wallis Simpson e Edward VIII. Mas foi uma escolha dela e, para quem consegue ver o filme sem preconceito, é muito coerente." A seguir, a entrevista com Keshishian, feita pelo telefone, de Los Angeles.

Não sei nos EUA, mas no Brasil a crítica tem reagido muito mal a W.E. Se eu lhe disser que

a chamam de incompetente, o que você me responde?

Não vou ofender ninguém, mas se há uma coisa que Madonna não é, em nada do que faz, é incompetente. Ela é ambiciosa. E ousa. Entendo que, nesse sentido, muita gente poderá dizer que W.E. é um equívoco autoral. Eu não acho. Não é meu filme. Com certeza o teria feito diferente. Mas acho importante que ela esteja disposta a arcar com suas convicções.

A maneira mais fácil de ver W.E. é buscar nas duas épocas do filme, na história de Wallis e Edward e na de Wallis e Evgeni, simplesmente um reflexo da condição de Madonna como celebridade. Mas ela deve ter pensado nisso, não?

Não quero forçar a barra citando Adorno, que refletiu sobre os conceitos do sujeito e do objeto, mas a vida de Madonna tem sido um embate entre o sujeito que ela sabe ser e o objeto em que a mídia tenta transformá-la. Madonna já usou a mídia para se promover e isso gerou uma relação de amor e ódio. Em W.E. ela tinha clara a dualidade e a expressou nas duas Wallis. A que levou o rei a renunciar e a outra, contemporânea, infeliz no casamento, e que elege a primeira como objeto de estudo.

Há uma frase muito interessante, quando alguém, falando de Edward, diz que o rei, mais

do que obcecado, era possuído (possessed) por Wallis. A Wallis contemporânea não deixa de

também ser possuída pelo mito, você concorda?

Na cabeça de Madonna, isso era fundamental. Tinha de ser assim. Às vezes, eu lhe dizia que achava a parte moderna da história um tanto óbvia - a infelicidade no casamento, o marido violento, o desejo de ter filhos. Ela retrucava que tinha de ser, que sem a parte antiga, a moderna não faria sentido, ou não teria a dimensão que ela queria. E tinha muito claro, também, que as duas histórias tinham de ser narradas não apenas em tempos diferentes, mas também em estilos. Madonna é obcecada por Godard, pela nouvelle vague. Creio que foi um risco muito grande aplicar esses conceitos estéticos à trama que não deixa de ser tradicional. Afinal, a história de Wallis e Edward não deixa de ter uma dimensão de conto de fadas.

Mas, na realidade, é o anticonto de fadas. Wallis se queixa de ter sido demonizada (como Madonna também é) e diz que ninguém olha a história de seu ângulo. Edward fugiu de uma prisão (o reinado) e a pôs numa gaiola, como um pássaro raro. Não é?

É o que ela dizia. Uma das tantas abordagens possíveis em W.E. é essa de que não existe amor perfeito. Acho muito corajoso que Madonna, como mulher, e como a mulher libertária que é, aborde esse tema que ainda é tabu, mesmo no pós-feminismo. Edward não tem consciência da própria crueldade ao transformar a mulher num objeto e fazer com que Wallis dance. A própria Wallis é ambivalente. Por que ela dança? É uma metáfora, claro, a mulher que se mede pelo olhar do homem, mas também é alguma coisa mais sutil, ligada à culpa. Esse homem renunciou a um trono por amor. É muito mais fácil para uma mulher reagir a outro tipo de violência, mais física, como quando ela apanha, no começo, e aborta.

Quando Wallis prepara a bebida para Edward, há uma montagem dos gestos dela e dos dele, que fuma. Um balé das mãos. É algo que estava escrito?

De maneira nenhuma. Havia o diálogo e o silêncio da cena. O que você vê na tela foi a opção de mise-en-scène de Madonna. Creio que se trata de uma das cenas mais ambiciosas do filme. Cria uma espécie de jogo. É o momento em que ela começa a invadir o universo dele, mas, reciprocamente, é quando ele também é possuído. É como se fossem marionetes um do outro.

Acho que havia mais Godard na primeira direção de Madonna, Filth and Wisdom, filme de 2008. Esse balé das mãos me lembrou Robert Bresson, Pickpocket. Digo alguma coisa absurda para você?

Nada que se diga sobre Madonna será absurdo para mim, mas é o tipo da pergunta que você teria de fazer a ela. Só Madonna sabe de quem se trata.

E Crescei-vos e Multiplicai-vos?

Essa era, sim, uma referência. A crise do casal, o texto de (Harold) Pinter. Mas o filme é um cult de poucos. Para as novas gerações nem existe.

/ FLAVIA GUERRA

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