Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Madonna defende sua coroa

Incansável, a cantora de 54 anos mostrou no Rio que ainda é muito cedo para ela tirar o time de campo

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2012 | 02h11

RIO - Miracolo! Madonna ainda canta! No primeiro show da turnê brasileira, domingo à noite, no Parque dos Atletas, Rio, para um público turbinado de quase 70 mil pessoas, ficou claro que Madonna se sentiu desafiada. Parecia dizer: se "ela" canta de verdade, eu vou provar que também sei cantar, e grudou no microfone, abrindo mão dos truques eletrônicos para fazer reparos de voz e do playback. E ela não é nenhum portento, mas tem gogó e sabe como segurar um espetáculo no pulmão. Ponto para Madonna.

Madge já foi sinônimo de transgressão, mas hoje o momento mais forte do show não são as cenas de ambiguidade sexual, a pegação sadomasô, as cenas do erotismo de butique, a política do crioulo doido (que atira para todos os lados). A cena mais simbólica é quando Madonna para e fica olhando para o filho, Rocco, fazendo seu número de breakdance de ponta-cabeça, e ao final Rocco chamando a mãe com um gesto de rebeldia estandartizada, como se dissesse "Chega aí, coroa!", e ela sai abraçada ao garoto, orgulhosa, realizada como mãe e mulher de negócios.

"Eu amo o Brasil e meus fãs no Brasil serão sempre maravilhosos", ela disse. Mas é um amor pouco rigoroso, tanto que ela demonstrou não lembrar nem uma frase completa em português, nem fez questão de ensaiar. Jesus Luz não foi "aquele" professor. Quis dizer muito quente e disse "mucho caliente". Quis dizer "estão prontos?" e disse "están listos?".

Madonna ainda cometeu umas gafes normais para quem está controlando um show desse tamanho. No início, saudou o Rio, mas teve um momento em que confundiu e disse: "Hey, São Paulo!". Acho que foi um lapso equivalente ao Bush, quando nos chamou de Bolívia. Ela também dedicou Open Your Heart a Britney, não se sabe se com ironia ou com zelo de irmã mais velha, já que Britney está nessa vida por culpa de Madonna (e não só ela).

O show de Madonna é um delírio para videomakers (como costumávamos chamar antigamente, nos tempos de Madonna, esse tipo de profissional). Os bailarinos usam as projeções como um elemento de cena, e dançam com um timing perfeito em torno das construções virtuais do espetáculo. Do ponto de vista musical, é um show conservador, não oferece grandes momentos - exceto o espetáculo percussivo que acontece quando a banda marcial surge tocando no teto do palco, com um outro grupamento avançando em direção ao público no solo.

Os balés envolvem clowns sinistros, militantes mascarados do Occupy, cândidas cheerleaders, gangues de malandros, desfile de modas. Estão organicamente mais amarrados, não são aleatórios, mas dizem pouca coisa como discurso. As músicas mais antigas, como Papa Don't Preach, Like a Prayer, Express Yourself, Celebration, encaixaram bem com as mais novas, como Gang Bang, e isso é um inegável mérito da direção artística, já que há um abismo entre o pop dos anos 1980 e o do século 21, buraco cavado pela música eletrônica. MDNA encurtou essa distância, ponto para ela de novo.

Ela capricha nas velhas provocações, mostra o dedo médio para a cruz católica, deitada no chão (o que diria se alguém fizesse o mesmo em direção aos símbolos de sua atual religião? Considera-a menos opressiva?); mostra o traseiro para a plateia; agarra meninos e meninas. Mas, convenhamos: apesar do encaretamento geral do planeta, a sublevação comportamental de Madonna hoje em dia é tão chocante quanto pichação erótica em banheiro público.

Tentou proibir o cigarro no show minutos antes de subir ao palco, por meio de um locutor, pedindo um show "livre do fumo", mas é aí que se descobre que a paciência do fã também tem limites - depois de três horas de atraso, ainda querem dizer como você deve se comportar em relação a seus vícios pessoais?

"Pessoas morrem sem nenhuma razão", disse Madonna, lamentando que o mundo esteja mergulhado em guerras, e citou Palestina, Israel, Síria, Irã. "Quando dizem que não posso mudar o mundo, eu respondo: fuck you! Eu posso mudar a mim mesma. Quando você muda a si mesmo, você começa uma revolução. Estão prontos para a revolução? Em meu país, a gente responde 'fuck yeah'. Estão prontos? Não mintam para mim", conclamou.

Madonna dança muito, é uma digna MC de um tempo de hedonismo ingênuo e divertido. Segue inquebrável com seu circo mundo afora, como prova viva de que uma mulher de 54 anos não difere de uma de 24 anos, que o mundo mudou e certos dogmas não fazem mais sentido. Não tem porque tirar o time de campo.

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