Macumba Oswaldiana

A cena invade as ruas na evocação da antropofagia feita pelos atores do Oficina

O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2011 | 03h07

Se a alegria é a prova dos nove, Macumba Antropófaga, espetáculo que encerra a temporada no Teatro Oficina, passaria pela prova com distinção e louvor. A moçada que se junta ao coro de intérpretes no desfile do espetáculo pelas ruas do Bexiga decorou a melodia e a letra das canções que acompanham o movimento peripatético e, mais do que isso, aprendeu o complexo arranjo que harmoniza as vozes do coral. Parte do público, e não a menor, está revisitando o espetáculo pelo prazer de participar e essa transformação da experiência singular em cerimônia ritual é um dos desejos explícitos de uma encenação que considera o teatro um lugar sagrado "que não pode ser vendido nem comprado". Há uma simpatia fácil, provavelmente de relação consolidada, entre o cortejo formado por atores e público e os habitantes de um bairro que sustenta a maior escola de samba da cidade. Esse elo forjado pela convivência e pela analogia entre dois formatos artísticos reflui para o espetáculo como um humor às vezes empático e às vezes condescendente e irônico.

No episódio representado diante de uma das residências de Oswald de Andrade, por exemplo, entra em cena uma cabrinha encarregada de ligar o poeta ao simbolismo da deglutição. É a bem-humorada colaboração de uma moradora do prédio que enriquece a trama convidando para a cena um gracioso e desinibido papagaio. Algumas crianças aproveitam a oportunidade de exibir acrobacias e, acomodados nas mesas dos bares, estão também os críticos improvisados comentando isto ou aquilo. Enfim, nada de novo para cidades habituadas ao teatro de rua, mas, para os paulistanos, um formato teatral cada vez mais impossível em uma metrópole cujos espaços de convivência mínguam diariamente. Este é um dos sentidos que o Teatro Oficina Usyna Uzona recria de modo vigoroso nesse trajeto inicial do espetáculo baseado no Manifesto Antropófago. O teatro para multidões deve invadir ruas, ser impregnado pelo que a rua oferece de modo distraído e deixar (se for bem sucedido) um rastro fulgurante na memória dos espectadores ocasionais.

Nisso, como nas cenas que se seguem ainda fora do edifício, o roteiro de José Celso Martinez Correa é fidelíssimo ao pensamento do autor do célebre manifesto publicado em 1928. Na dramaturgia, na crítica e nos comentários esparsos sobre a arte cênica, o traço genérico que Oswald de Andrade partilhava com futuristas de outras correntes estéticas era o desejo de romper com o formato acanhado da cena italiana e comunicar-se na mesma escala gigantesca dos acontecimentos esportivos. Com persistência e enorme esforço de mobilização social, o Teatro Oficina procura a amplitude geográfica adequada a essa dimensão imaginária e o rompimento físico "edifício em direção à rua" é, por si só, um transbordamento que faz da cidade o teatro.

Os episódios seguintes referem-se às circunstâncias estético-históricas do modernismo brasileiro e às figuras importantes para a arte e para a vida afetiva de Oswald de Andrade. Biografia e fragmentos de outros escritos sinalizam de modo poético a ruptura com o passadismo e a classe social de origem de Oswald de Andrade e de sua companheira Tarsila do Amaral. "Eu me jogo seminua de minha posição social abaixo", exclama a anima do Poeta na peça A Morta. Na transposição espetacular, o fascínio pela estética da burguesia é recriado para que a "queda" na alteridade proposta no Manifesto seja igualmente impressionante. O luxo sugerido pela tenda almofadada, a bebida servida sobre a bigorna dourada, o som de jazz para ouvintes cultos antecedem o choque e imersão no "país da Cobra Grande". Em surdina a princípio, o ritmo do coro indígena vai expulsando da cena a cultura refinada do hemisfério norte e o público caminha para a parte da encenação diretamente inspirada no Manifesto Antropófago.

Embora o público continue alegríssimo, são de outra ordem os prazeres proporcionados pela dramatização dos parágrafos do Manifesto. Sempre escrupuloso em relação às fontes textuais que adota para seus espetáculos, José Celso não exclui sequer uma das combativas afirmações do manifesto. Nem todas as assertivas dessa verdadeira súmula cultural são expostas com clareza e há alguns acréscimos cuja ligação com a fonte principal do espetáculo não ficam muito nítidas. Personagens, falas e situações de outras peças de Oswald de Andrade, por exemplo, deixam a impressão insatisfatória de que falta o resto da cena. Em particular a iconografia católica perdeu a importância na civilização brasileira na primeira metade do século 20. Verónicas e Cirineus talvez necessitem contextos explicativos para ter algum efeito cômico. Invocar o Papa, o imperador-presidente da França, e um juiz da "Vara de Família" para simbolizar as instâncias autoritárias herdadas e ainda vigentes é um procedimento ilustrativo em perfeito acordo com as teses antropófagas. No entanto, o estilo predominante no espetáculo é o da celebração oficiada por um coro e o tratamento farsesco dado a essas personagens não tem o mesmo brilho e requinte dos cânticos de louvação.

Por outro lado, outras associações entre os axiomas do manifesto e fatos análogos na arte e na história têm uma conexão lógica rigorosa e, por essa razão, estimulam o exercício intelectual de reconhecer no tempo presente os mesmos fatos sob roupagens ligeiramente diferentes. As devorações "antropófagas" nos campos da arte e da ciência se desdobram em um tecido ao mesmo tempo coerente e muito bonito, quer seja sob a forma do rap e do mangue beat quer se manifestada através das figuras dos intelectuais franceses que compreenderam e se enamoraram das civilizações indígenas e dos africanos desterrados no nosso território. Em outras épocas, reverenciando o gênio tutelar da Antropofagia, os artistas do Oficina reafirmavam o caráter "forte e vingativo" da nossa mescla cultural. Hoje, ao que parece, exibem uma relativa serenidade para tentar "acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas".

Crítica:

Mariangela Alves de Lima

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