Macumba

Em dias de Quaresma e ressaca carnavalesca, com direito a renúncia de um papa e a passagem de meteoros!, vale pensar na macumba. Na arte da bruxaria ou magia negra. That old black magic that you weave so well (aquela magia negra que você trama tão bem), que, mesmo em tempos de "racionalidade", traz de volta o poder de atingir e ser atingido pelos outros. Tal como faz o amor e, por isso, me vem à mente o verso dessa velha, mas maravilhosa canção de 1942, de Harold Alen e Johnny Mercer.

Roberto Damatta, O Estado de S.Paulo

20 Fevereiro 2013 | 02h08

Sinatra canta com aquela energia interpretativa que faz você pensar em quantas vezes não fomos enfeitiçados. "Todos nós temos na vida/ Um caso, uma loura/ Você, você teve também. Uma loura é um frasco de perfume"... Ao lado do Silvinho, do Ronaldo e do Levy eu ouvi, outro dia, a voz de Dick Farney e me lembrei do Lucio Alves - esses macumbeiros de carteirinha. Bruxos incríveis. Dick Farney era um pianista de primeira categoria e um cantor do naipe de Sinatra. O outro tinha um instrumento musical dentro da garganta. Seria, talvez, um saxofone tenor. Era um portento e vale ouvi-los.

Mas voltando à macumba, digo logo de cara que é uma palavra de origem africana, do quimbundo. Uma língua banto dos bundos ou ambundos-andongos bundos e, dongos-quindongos de Angola.

Do ponto de vista social, macumba tem tudo a ver com visões gerais, com relações e afetos - esses elementos centrais dos sortilégios, das preocupações e do vodu. That vodoo that you do wo well (aquele bruxaria que você faz tão bem), diz Cole Porter, depois que o cantor recita: You do, something to me, that nobody else could do (você faz um negócio comigo que ninguém faz igual). Isso depois de garantir que o amante tem o poder de mistificá-lo e hipnotizá-lo. Amor ou macumba? Amor é macumba?

A macumba traduz a mistificação concreta de todo relacionamento porque somos indivíduos e somos, também, feixes de elos e sentimentos que temos com todo mundo, sobretudo com os que amamos e nos tocam. A ponto de incorporarmos as histórias dos outros como se fossem nossas. E deixarmos que os outros roubem nossas narrativas.

Fiquei assombrado com o que li de mim mesmo (mas escritos por outros) sobre este carnaval - essa macumbeira brasileira que, já dizia Lamartine Babo, marca a descoberta do Brasil "no dia 21 de abril, dois meses depois do carnaval". Esses relacionamentos cruzados, imbricados, híbridos (eu sou você hoje e amanhã, mas sou também você ontem...). Tudo isso é pura macumba.

Tomemos a cena clássica. Faço uma imagem sua e nela vou fincando agulhas. Duvido que você não sinta nada, se não ficar sabendo. É como o carnaval que hoje todos dizem que faz bem ao Brasil e que eu aprendi como sendo o maior ópio do povo. Alienante e alienador, diziam, como uma macumba.

* * * *

Três antropólogos profissionais - com livros publicados, marxistas, evolucionistas, funcionalistas, pré-estruturalistas e, naturalmente, ateus convictos, prontos a renegar toda crença em Deus - andam de madrugada pelas ruas desertas de uma Copacabana de 1950, um lugar ainda seguro do qual os amigos raramente voltavam para casa de táxi. Numa encruzilhada, topam com um despacho para Exu - o grande mensageiro e tomador de conta dos caminhos cruzados; lugar onde as surpresas ocorrem e mensagens vão e voltam com declarações de amor ou guerra - essas duas atividades nas quais tudo é válido.

Ali, no asfalto, jaz uma galinha assada, farofa com azeite de dendê, uma garrafa de cachaça, um par de copos baratos. Do lado, um charuto e fósforos Fiat Lux. Tudo pronto para o espírito do movimento, da vaidade e da incerteza saborear e, com isso, realizar a macumba de fazer alguém feliz por alguns dias ou meses.

Os três antropólogos descreveram os objetos falando do culto. Citam seus colegas - Arthur Ramos, Bastide, Verger, Herskovits, Edson Carneiro, Fulano, Sicrano, etc..., mas eis que um deles, um baixinho ousado, abriu a garrafa de pinga e tomou um vasto e prazeroso trago e, em seguida, comeu um pedaço do frango com farofa. "Está muito bem temperado", disse debaixo dos olhares estupefatos dos colegas que arguiram, primeiro, matéria de higiene, e depois, veneno e luta de classes (eles fazem isso como uma armadilha para nos liquidar! É uma sublimação da opressão, disse o mais esquerdista), e, finalmente, num inútil apelo relativista, falaram: Você está profanando e desacreditando um rito religioso, uma oferenda sacrificial afro-brasileira aos deuses dos pobres e escravos explorados!

Enquanto davam as lições saídas do medo e da sua mais profunda ambiguidade relativa à macumba - exatamente igual à que temos com o carnaval e com a corrupção -, o colega baixinho tinhosamente refastelado de galinha e farofa fumava fagueiro o charuto. E ria, dizendo: "Vocês não são antropólogos, são crentes. Não na antropologia, mas em macumba!"

Ouviram, então, um estrondo igual ao raio que caiu na Capela Sistina quando o papa renunciou. Mas o baixinho continuou fumando e bebendo até chegar em casa. Na despedida, os colegas evitaram apertar sua mão. Quem estava debaixo do poder de qual feitiço?

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