Machado ironiza a ilusão

Contos de Papéis Avulsos demonstram a influência do ceticismo iluminista

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2011 | 00h00

A edição de clássicos no Brasil é notoriamente deficiente em quantidade e qualidade. No caso de nosso maior escritor, Machado de Assis (1839-1908), não é diferente: são raros os livros bonitos e baratos. Logo, a publicação pela coleção Penguin Companhia das Letras de seu melhor volume de contos, Papéis Avulsos, merece comemoração. O preço é bem menos amigável do que seus equivalentes de língua inglesa (R$ 25), mas melhor que o da charmosa edição de 2005 da Martins Fontes (R$ 38). Já um volume elegante de Dom Casmurro ainda é mais difícil de encontrar do que o olhar de Capitu.

Outra diferença para os anglo-americanos é o aparato editorial. Só no Brasil os clássicos da Penguin são publicados com notas de rodapé, não raro explicando o óbvio. Na coleção original, as notas são bem menos numerosas e ficam limitadas às páginas finais. Por que essa feição acadêmica? Será mesmo que, na era do Google, os leitores precisam tirar os olhos do texto para obter no pé da página uma informação sobre o que é O Príncipe de Maquiavel?

Papéis Avulsos é de 1882, um ano depois da publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Que em tão pouco tempo um escritor tenha posto na praça dois livros dessa grandeza, em gêneros diferentes, permanece um espanto. Mas Papéis Avulsos é um espanto em si mesmo. Se Machado escreveu esses contos ao longo dos anos anteriores, não apenas depois da célebre crise de saúde que o levou em 1879 a se internar em Nova Friburgo, certamente eles marcam do mesmo modo sua virada literária.

Até ali, tinha escrito contos e romances consistentes, com alguns "brotos" do estilo maduro (sic). Os problemas com a epilepsia e a retinite e a decadência do mundo onde vivera a vida toda, o Segundo Reinado (1840-1889), causaram reação mais radical: sua literatura ganhou uma liberdade e um humor que deixam para trás a influência de José de Alencar e o esquematismo moral dos enredos. A pretensão de totalidade de românticos e religiosos passou a ser seu maior alvo crítico - e sua prosa fundou a modernidade abaixo do Equador, unindo alegoria e realismo com uma sutileza rara em qualquer quadrante.

O prefácio de John Gledson não toca nesse ponto central, nem mesmo quando fala de O Alienista, que critica a ciência que se porta como religião. O diálogo irônico da Teoria do Medalhão também mostra como Machado herdou o ceticismo iluminista - ou seja, liberal - e como não via na elite brasileira o menor traço disso. A Sereníssima República igualmente remete a Voltaire, assim como O Espelho não existiria sem Edgar Allan Poe - duas fontes que costumam ser menosprezadas pelos estudiosos do Bruxo brasileiro. Mas chega de notas de rodapé, leitor. A você, os avulsos!

PAPÉIS AVULSOS

Autor: Machado de Assis

Editora: Penguin Companhia

(268 págs., R$ 25)

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