Macbeth em baixo-relevo

O monarca triste e apático de Daniel Dantas comanda todo o espetáculo

, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2010 | 00h00

  O casal de governantes shakesperianos. O universo da peça é, desde o primeiro momento, regido sem a grandeza aparente. Foto: Claudia Ribeiro/Divulgação

 

 

Nas praças teatrais onde são frequentes encenações de Shakespeare, era também hábito dos comentaristas de teatro associar personagens a intérpretes exponenciais. Assim tivemos o "Hamlet de David Warner" ou outros avatares passados do príncipe dinamarquês. Por várias razões e, entre elas, por força do reconhecimento de uma transformação da cena, o foco analítico das últimas três décadas do século passado destacou a assinatura do encenador, em vez dos atores.

Os compêndios da historiografia teatral contemporânea invocam com maior constância o "Sonho de uma Noite de Verão do diretor Peter Brook" do que a "Titânia de Helen Mirren". Embora o intérprete seja inevitavelmente a viga mestra do espetáculo - se ele não estiver lá não há teatro - a concepção autoral foi em grande parte delegada ao diretor. O melhor disso é que passamos a compreender o espetáculo como uma totalidade espacial, temporal e significativa.

Aderbal Freire-Filho é encenador formado e experimentado nessa vertente autoral e, apesar disso, a assinatura nítida dos seus espetáculos em nada obscurece o trabalho do elenco. Ao contrário, as encenações que tem apresentado em São Paulo exibem a produtividade que alicerça toda a criação artística. Cada vez mais seus espetáculos expõem o entorno da área de representação, os pontos de fuga se multiplicam na cenografia para evitar a perspectiva ilusionista e a transição entre diferentes cenas ou tonalidades dramáticas é marcada por rupturas por vezes bruscas em que os atores assumem a tarefa de demolir e recompor a ambientação das cenas.

Todas essas ideias e formalizações persistentes reaparecem na concepção deste Macbeth. No lugar de uma ordem moral destruída pela intenção e pelo ato criminoso, o universo da peça é, desde o primeiro momento, esfacelado, regido por uma ordem sem cerimônia e sem grandeza aparente. Do mesmo modo, as entidades que corporificam o mal têm um tratamento contemporâneo, próximo das interpretações clínicas do impulso perverso. Não nos parecem a contraface do plano ético desviando e seduzindo, mas, antes, a corporificação da vulgaridade das massas, da turba que açula a revolta por puro gosto de ver o circo pegar fogo.

Em resumo, não se percebe bem a queda do homem honrado na estima dos seus pares e a perdição da alma como uma decisão livremente arbitrada, dois temas que insuflaram boa parte das criações artísticas do Renascimento. Este Macbeth e sua valente companheira são, antes, dois criminosos ousados, abrindo caminho em um universo que não oferece muita resistência. É precário o reino onde tudo se move, os andaimes que suportam o poder são visíveis, é tênue a iluminação que distingue o solilóquio do diálogo e a indefinição dos figurinos e interpretações uniformiza a participação e o caráter dos adversários do usurpador do trono.

E é desse modo, através da dissolução dos contornos das outras personagens e atos e da abertura da cena para a exposição das estruturas e materiais comuns que o espetáculo se abre de modo tortuoso para o protagonismo do ator na comunicação do espetáculo. O que está em cena é o Macbeth de Daniel Dantas.

Desde a primeira aparição como general vencedor e homem de boa reputação, há na expressão facial, na postura e na elocução do ator sinais de descrença tanto no fundamento virtuoso das honrarias quanto nas promessas de poder absoluto. Tirando proveito de um clichê literário diríamos que o olhar deste súdito regicida e anfitrião sacrílego derrama-se sobre as coisas sem distinguir mérito na hierarquia ou santidade no lar. Move-se de modo quase lento, permeando os atos com uma apatia próxima do cinismo. Mesmo a ambição não se configura de modo claro. Antes há raiva insensata, irritação superficial nas réplicas e acento forte na teimosia, este último traço indispensável para compreendermos o que impele à ação uma personagem que desacredita na eficácia dos atos. É através desse desencanto do protagonista no governo e do desprazer com que exerce a tirania que tanto as batalhas quanto os protestos de virtude da reação parecem pouco dignos de crédito.

Niilista. Trabalhando em baixo-relevo, sem ocupar a dianteira das cenas e dos grupos, quase sem distinguir a fala interior dos diálogos, Daniel Dantas faz de Macbeth um niilista soberbo apenas da sua imensa tristeza. É uma interpretação densa e que comanda toda a percepção do espetáculo.

Lady Macbeth, interpretada por Renata Sorrah, não tem a dureza granítica que o texto indica na superfície e tampouco traços másculos que lhe atribuem interpretações afamadas. Ao que tudo indica, o que a atrai é a autoridade que fará justiça à beleza e altivez que já possui.

Esta espectadora gostaria de esquecer o momento em que a curta chama da vida perde seu valor de signo. Nas melhores obras há, por vezes, bobagens que merecem ser tratadas pela denominação literal de bobagens.    

MACBETH

Sesc Pinheiros. R. Paes Leme, 195. 3095-9400. 6ª e sáb., 21h; dom. e feriado, 18h. R$ 20. Até 18/7.

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