Macarronada

Helena e Marcos decidiram se casar. Helena avisou a família e ouviu uma queixa do avô:

Luiz Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2012 | 03h11

- Eu não conheço o moço.

Em seguida o avô se lembrou dos tempos em que estamos vivendo e emendou:

- Suponho que seja um moço.

- É, nono. É homem. Vai ser um casamento tradicional.

- Mas eu nem conheço o moço!

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Combinaram que haveria um jantar para o avô conhecer o moço. E mais: o nono cozinharia. Faria a sua elogiada macarronada com molho de ragu secreto. A macarronada era elogiada pela família para agradar ao velho, pois o ragu era intragável. Desconfiavam que o ingrediente secreto fosse grapa. Felizmente, o velho só fazia a macarronada para ocasiões especiais. Como um jantar para conhecer o moço que casaria com sua neta.

- Não deixe de elogiar a macarronada dele - instruiu Helena.

- Certo.

- Fale alto porque ele está ficando surdo.

- Tá.

- E não fale em política.

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O velho admirava o Mussolini. Dissessem o que dissessem dele, Mussolini trouxera ordem e progresso à Itália. Só Mussolini conseguira que os trens italianos andassem no horário. O Brasil precisava de alguém como o Mussolini. O mundo precisava de muitos Mussolinis.

- Vou declarar que eu sou fascista desde pequeno - propôs Marcos.

- Não precisa tanto. Só não toca no assunto.

- Certo.

- Lembre-se: elogiar a macarronada, falar alto e não tocar em política.

- Perfeito.

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Mas Marcos sentou-se para o jantar nervoso. Não conseguia decifrar o olhar com que o velho o examinava. Aprovação, desaprovação, desconfiança? O velho não falava. Quando chegou a macarronada Marcos se sentiu na obrigação de dizer alguma coisa.

- Ah - disse. - A famosa macarronada com o molho secreto. Sua neta me falou a respeito.

- Quem? - disse o velho.

- Sua neta. Helena.

O velho olhou em volta da mesa como se pedisse socorro. O que aquele moço estava dizendo? Marcos, cada vez mais nervoso, falou mais alto.

- O molho secreto! Maravilhoso! Ainda não provei, mas só a cor...

- Ahn - fez o velho. - Vermelho. Você gosta de vermelho?

- Não! Não! E tem mais...

Marcos estava tomado de uma espécie de frenesi. Quase gritou:

- Eu acho que o que este país precisa é de alguém que faça os trens andar no horário!

O velho sorriu. Gostara do rapaz. Fez questão que ele repetisse a macarronada com molho de ragu secreto. E o ragu estava pior do que nunca.

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