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Humberto Werneck
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¡Macacos me muerdan!

Macaco, olha teu rabo, haveria de advertir mamãe, se me visse rir das trapalhadas linguísticas de nossos compatriotas no exterior. De fato, quem sou eu para rir de alguém que, no afã de se comunicar, atropela idiomas, se mesmo ao português costumo causar danos? Até falo, fluentemente, umas línguas estrangeiras. O problema é que ninguém entende.

Humberto Werneck,

18 de maio de 2014 | 02h14

Deveria, portanto, ficar quieto - e mudo - no meu canto. Mas não, eu me divirto - e diversão nesse departamento é o que não me tem faltado nestes dias em Buenos Aires. Com empáfia de quem fosse poliglota, fico a imaginar em quantos desses hotéis tem brasileiro a esfregar o umbigo no balcão do hotel para reclamar da falta de água "quiente". Ou, no café da manhã (para muitos, "café de la mañana"), querendo ovos mexidos, o "revoltillo" dos nativos, pede "huevos mejidos" e, para que não haja dúvida, se põe a balançar em círculos a cabeça.

Menos desastroso, em todo caso, do que o episódio vivido por um amigo, que, em pleno entrevero carnal, custou a entender as exclamações - "¡vente, vente!" - com que a garota argentina o incitava a fazer coincidir com o dela o ansiado desfecho. "Vente?", afligia-se ele, temeroso de que um esmorecimento físico viesse envergonhar as cores nacionais, e lamentando que o kit sexual não incluísse um dicionário. Ela está pedindo para eu soprar? Felizmente, matou a charada a tempo de, ufa, "venir" juntinho com a muchacha.

Devo confessar os baixos sentimentos que de mim se apossam em presença de brasileiro a falar língua estrangeira. Se ele se sai mal, sou macaco que, esquecido do próprio rabo, se deleita e rola. Se se desincumbe a contento, vejo cair sobre mim o peso da inveja e da humilhação linguística. Você pode não acreditar, mas temo o ridículo, o que me leva às raias do mutismo. Não me arrisco como aquela tia que, em Buenos Aires, ao ver um esquisitíssimo ônibus sem capota, lascou: "¿Adonde va la joça?" Não é que se fez entender? "A Olivos, señora", respondeu o condutor da joça.

Sei que é assim, ousando, que se aprende outro idioma. Metendo os peitos. Tacando los pechos. Ao ouvir "¡vente!", eu deveria ventar, quer dizer, deveria me largar - mas, covardemente, me refugio numa paralisante cautela. Já não confio na intuição. Estudante em Paris, entrei numa papelaria e em vez de pronunciar a palavra que me viera à mente, enveredei pela descrição da folha que se usa para fazer cópias à máquina, até que a balconista me passasse o atestado de bocó: "Ah, carbonne!"

Como tudo o mais, porém, há que ter limite a ousadia linguística. Um ex-presidente brasileiro recebeu certa vez um colega sul-americano a bordo de um navio na Amazônia - e, ao vê-lo aproximar-se, engravatado naquele calorão, fez o gesto de quem sacode as abas do seu ali imaginário jaquetão, bradando, sob a bigodeira negra de humilhar graúna: "Presidente, ¿por qué no saca Usted sus pantalones?". Seus assessores quiseram se atirar no rio. O mesmo personagem (antes que alguém aí se assanhe: não foi o metalúrgico), não contente em circular em Nova York, todo pimpão, numa interminável limusine branca, a preferida das noivas, numa roda de hispano-americanos pediu "una Cueca-Cuela".

Não recomendo a ninguém que, em Paris, chame a panturrilha de "pomme de terre de la jambe", ou, macho vendo passar mulher apetitosa, dê tradução literal - "morceau de mauvais chemin" - àquele pedaço de mau caminho. Ou, ainda, querendo deixar claro que não há meio termo, vá de "pain, pain, fromage, fromage".

Pior que isso foi a confusão que fez um executivo brasileiro ao se despedir de um colega francês. Alguém lhe havia soprado a palavra "baiser", sem contudo explicar que ela tanto pode ser substantivo, para designar beijo, como verbo, significando ter relações sexuais. "Baisez votre femme pour moi!", disse jovialmente o brazuca, sem entender por que monsieur fechou a cara, e sem se dar conta de que poderia desembarcar no Brasil com olho roxo.

Moral da história: mais vale, em Paris, "mettre la barbe dans la sauce", ou, aqui em Buenos Aires, "poner las barbas en la salsa". Minha mãe, se argentina fosse, recomendaria: "Mono, ¡mira tu cola!"

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