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Lúcia Guimarães
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Maçã menor

"Eu desisto." A manchete em letras pequenas na capa da revista New York acompanhava a foto em close-up do ator Alec Baldwin. Os olhos azuis arregalados, a barba por fazer, mas um rosto ainda atraente.

LÚCIA GUIMARÃES, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2014 | 02h10

Antes de chegar às bancas, o artigo confessional de mais de 5 mil palavras já tinha sido motivo de chacota, sarcasmo, desprezo e análises de autores que deveriam estar acompanhando a crise na Ucrânia.

Baldwin escolheu uma tradicional mídia nova-iorquina para comunicar à cidade que chama de sua há 35 anos que não acha mais possível morar aqui. O ator, que os brasileiros acompanharam mais recentemente nos filmes de Woody Allen e na série de comédia 30 Rock, se declarou derrotado pela "arena digital, o Coliseu Romano do curtir e descurtir".

Alec Baldwin tem um longo currículo de explosões temperamentais e confrontos com a mídia de celebridades. Mas 2013 foi o ano em que sua carreira sofreu uma fusão nuclear. Começou na Broadway, num bate-boca com Shia LeBoeuf que resultou na demissão do jovem e igualmente temperamental ator do elenco da peça Órfãos. Continuou quando um repórter de tabloide britânico escreveu que a mulher do ator, Hilaria Baldwin, tuitou na igreja durante o tributo fúnebre a James Gandolfini. Hilária não estava tuitando, ela provou depois, mas o marido saiu atrás do repórter, que é gay, gritando "you toxic little queen".

Atores com o pavio curto de Baldwin e Sean Penn são presas favoritas dos paparazzi porque caem na armadilha da provocação e fazem disparar o preço de fotos e vídeos. Alec Baldwin mora no East Village em Manhattan e seu prédio é ponto obrigatório dos parasitas do coliseu digital. Eles avançam sobre sua mulher e a filha de seis meses com uma agressividade que seria considerada crime num país europeu.

A diferença é que Sean Penn mora protegido por portões na Califórnia e Baldwin mora numa rua movimentada de Manhattan. Mas há outra diferença que me interessa mais. Alec Baldwin, nascido num subúrbio de classe média em Long Island, é encontrado nas calçadas da cidade, recolhendo o cocô de seus cachorros, sem aparato de segurança. Há anos marca sua presença cívica em Nova York. Ainda que seja narcisista ou dramático, Baldwin defendeu a cidade doando dinheiro para a Filarmônica, participando de uma campanha para salvar uma boa rádio universitária, promovendo a história do cinema numa série de cabo e fazendo comercial de um banco local com o intuito de doar o dinheiro para sua fundação de apoio às artes e educação, entre várias atividade nas quais se empenha, não apenas manda um cheque. Até o fim do ano, ele gravava toda semana, por um cachê certamente irrisório, um podcast para a rádio pública com entrevistas deliciosas com figuras não só famosas mas inteligentes. Pois o financiamento para o podcast secou. O contrato de publicidade com o banco foi suspenso. E o canal de cabo MSNBC, cancelou, em poucas semanas, um recém criado programa de entrevistas com Baldwin por causa de uma altercação com um dos mais agressivos fotógrafos que fazem ponto na sua porta, a serviço da asquerosa organização TMZ.

No momento em que ele embarcava a filha bebê no carro, acossado pelo paparazzo, Baldwin agrediu verbalmente o sujeito com uma palavra que sugere sexo oral. Mas a TMZ o acusou de ter chamado o fotógrafo também de "bicha", o que ele nega.

E, assim, Alec Baldwin, que já oficiou o casamento de amigos gays, se tornou o Judas da homofobia, condenado por comentaristas gays de alta visibilidade como Anderson Cooper, na CNN, e o blogger Andrew Sullivan. Baldwin se defende e diz que nada na sua vida ou nos seus relacionamentos sugere homofobia. Reconhece que deu munição aos críticos e perdeu várias oportunidades de ficar calado.

Agora decidiu ceder à cultura que despreza anos de boas ações e define as pessoas pelo pior momento registrado numa câmera de celular. Nova York vai ficar menor sem ele.

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