Denise Andrade
Denise Andrade

MAC, novo supermuseu

No aniversário dos 50 anos, museu ganha um projeto de Paulo Mendes da Rocha na USP

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

09 Setembro 2013 | 02h12

Em ritmo de expansão, o Museu de Arte Contemporânea (MAC/USP) ganha em seus 50 anos uma nova sede na Cidade Universitária, após quase concluída a ocupação integral de sua outra sede no Ibirapuera, onde funcionava o Detran - o que deve acontecer até o fim do ano com a transferência do acervo provisoriamente abrigado no edifício da Bienal. O autor do projeto, Paulo Mendes da Rocha, prêmio Pritzker de Arquitetura de 2006, revelou com exclusividade ao Estado como será o novo museu, a ser construído na Avenida Professor Lineu Prestes, integrando-se à Praça dos Museus, projeto concebido também por ele e cujas obras estão em andamento. 

A proposta inicial da praça, projetada há 13 anos, abrigaria apenas um conjunto de quatro edifícios - um auditório e três museus (de Ciências, Arqueologia e Etnologia e Zoologia). Desses, os dois primeiros já foram levantados e estão em obras, restando apenas o de Zoologia, em fase de licitação. Com a inauguração do novo MAC no Ibirapuera, em janeiro do ano passado, conclui-se que, embora o espaço seja muito generoso, não permite expor obras de grandes dimensões devido ao acanhado pé direito do complexo arquitetônico, projetado nos anos 1950 por Oscar Niemeyer. Assumido o compromisso de entregar o andar ocupado no prédio da Bienal e com as limitações físicas da sede atual do MAC (na Praça do Relógio da Cidade Universitária), optou-se por construir um novo edifício, na Praça dos Museus da USP.

"Estamos terminando o projeto executivo e vamos fazer dele o prédio símbolo da USP", promete o reitor da universidade, João Grandino Rodas, adiantando que o edifício-sede atual do MAC no campus terá outra destinação. "O MAC tem um acervo muito grande e a divisão em dois vai certamente trazer maior visibilidade à instituição". Localizada numa área antes periférica do campus, a Praça dos Museus passará, segundo Rodas, a ser o "centro" da universidade. Nela, será instalada, além dos já citados museus, uma torre para abrigar o MAC, que vai dividir o espaço com o Instituto de Estudos Avançados (IEA) e o Núcleo de Estudos da Violência (NEV), que, desde 1987, desenvolve pesquisas sobre violência, democracia e direitos humanos.

Democracia. O espaço do supermuseu será bastante democrático - e isso não só porque o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, uma das vítimas da ditadura, teve seus direitos políticos cassados em 1969 e sabe o que significa liberdade e cidadania. O reitor Rodas compara a Praça dos Museus à antiga ágora grega, espaço central da pólis, uma grande invenção urbanística para incorporar cultura e política num único espaço. "A torre do MAC será, de fato, a porta de entrada dos visitantes e um espaço de convivência na Cidade Universitária", completa o arquiteto, apresentando o projeto. Nele, destaca-se uma edificação vertical de 80 metros de altura com heliponto, café, biblioteca, auditório (2 mil m²) e um grande espaço expositivo no subsolo (mais de 3 mil m²). Ao lado, um estacionamento circular de rampa contínua vai receber 400 automóveis, tendo no topo alojamentos para professores residentes e convidados.

O custo do projeto ainda não foi definido. A reitoria deverá lançar até o fim do ano a licitação para construir o complexo arquitetônico, que, estima-se, estará pronto em dois anos. O último grande projeto da USP, a Biblioteca Mindlin, custou R$ 160 milhões, dos quais só R$ 20 milhões vieram de doações. Considerando a grandiosidade do novo MAC, ele deverá exigir mais.

Evolução. O acervo do museu, criado em 1963, justifica a aplicação. Com obras transferidas do antigo Museu de Arte Moderna, fundado por Ciccillo Matarazzo em 1948, o MAC tem hoje, de acordo com seu diretor, o crítico e professor Tadeu Chiarelli, mais de 10 mil obras, de Modigliani a Mira Schendel, passando por Morandi, Matisse e quase todos os artistas participantes da Semana de 22.

"Continuamos recebendo doações de artistas contemporâneos e muitos trabalhos ainda não foram mostrados por falta de espaço." Nos últimos três anos, foram doadas entre 250 e 300 obras ao museu. Ainda que tenha sido construído um anexo na sede do Ibirapuera para abrigar obras contemporâneas, o prédio é pequeno e utilizado apenas para mostras temporárias.

Chiarelli está detalhando o programa de retirada do acervo que está no prédio da Bienal de São Paulo. Até o fim do ano, todos os andares da nova sede do museu do Ibirapuera estarão ocupados. O arquivo da instituição será transferido para a futura sede na USP, onde vai funcionar a biblioteca, ateliês para cursos, salas de exposição do acervo e uma extensa área para mostras temporárias. Apenas 10% do acervo ficará no Ibirapuera.

Paulo Mendes da Rocha, que só este ano inaugura dois museus projetados por ele - o Museu dos Coches, em Lisboa, e o Cais das Artes, em Vitória, sua cidade natal -, projetou para o MAC da Cidade Universitária um prédio cuja recepção será feita pelo subsolo da praça - a referida área expositiva de 3 mil m². "A torre terá andares intermediários, com até 10 metros de pé direito, que poderão ser usados para reserva técnica e a biblioteca, além de espaço para mostras.

Autor dos projetos do Museu Brasileiro da Escultura (Mube/1988) e da Pinacoteca do Estado (1993), Mendes da Rocha tem larga experiência na área (ficou entre os 30 finalistas do concurso para construir o Centre Georges Pompidou, o Beaubourg, em Paris, entre 400 concorrentes). Há, contudo, certa incompreensão a respeito do uso de seus projetos. O Mube teve raras exposições de esculturas e, embora imaginado como um jardim - com um teatro ao ar livre e uma loggia coberta por uma viga de concreto -, foi pouco utilizado para mostras de escultura. A Pinacoteca fez do Octógono um espaço experimental dos artistas, quando o arquiteto projetou o espaço como ponto de encontro dos visitantes. Agora, ele toma as rédeas. Participa de reuniões periódicas com Chiarelli e o reitor para discutir cada detalhe da ocupação do novo MAC/USP.

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