Maastricht reconduziu Cohn-Bendit à arena francesa

Desde as trincheiras de maio de 68, Daniel Cohn-Bendit se define como "bastardo europeu". Expulso da França, onde nasceu (mas da qual não possui a nacionalidade: seus pais, alemães, esqueçaram de registrá-lo), e proibido pelo prazo de dez anos de entrar no território francês, "Dany" quase provocava um acidente de trânsito ao volante de um automóvel no qual retomava o caminho de Paris, em 78, no dia em que a proibição expirou. Ao ligar o rádio do veículo, tomou o maior susto e soltou o volante ao ouvir o noticiário sobre o fim de seu "exílio". O noticiário começava com sua própria voz gravada em precedentes barricadas - "Camaradas, a luta continua!" Foi no "exílio", em Frankfurt, que ele afiou as armas para a "revanche": depois de concluir suas experiências como educador num colégio infantil, tornou-se jornalista, livreiro, comentarista de futebol, militante ecológico, mentor de comunidades alternativas e acabou sendo "fixado" na função de assessor especial do prefeito da cidade para questões multiculturais. Neste posto, durante oito anos ocupou-se particularmente dos trabalhadores imigrantes, procurando facilitar a inserção destes na sociedade. Nessa mobilização, envolvendo educadores, religiosos, sindicalistas e empresários, ele contribuiu também para que o eleitorado da extrema direita se tornasse quase inexistente em Frankfurt. Sua eleição ao Parlamento Europeu pelo Partido Verde Alemão, em 94, seria o coroamento de uma trajetória política ainda em curso e conduzida não só com nonchalance, charme, cabotinismo "bon enfant", mas também com arraigado senso do bem comum, que o leva a definir a grandeza do homem público como sendo "a capacidade de desbloquear uma situação, desatar os nós que impedem a sociedade de avançar na sua construção democrática e solidária". Dividido a partir do mandato legislativo entre a política alemã e francesa, "Dany" iria optar pela segunda com a entrada em vigor do Tratado de Maastricht permitindo aos cidadãos da União Européia se apresentar como candidatos ao Parlamento Europeu num outro país da área que não seja o seu de origem ou naturalização. Assim, ele se habilitou a ingressar na arena política francesa. Com a unção praticamente unânime da mídia, empalmou a bandeira dos "verdes" e levou-os à vitória nas eleições de 99 encabeçando a chapa do partido. Antes, porém, de "desembarcar" na política francesa, em 96, "Dany" compensou o ato público do lado gaulês com uma emoção privada de grande intensidade do lado alemão: casou-se com sua companheira Ingrid, natural de Frankfurt e mãe de seu filho Bela. Na sua vida, há outra pessoa que ocupa espaço privilegiado - o irmão Gabriel, nove anos mais velho, este sim, francês certificado conforme e tudo, veterano na militância política e seu insubstituível conselheiro. "Gabi e alguns outros amigos me ajudam a fazer a distinção entre as loucuras verdadeiras e as loucuras simuladas...", ele explica, com ar jocoso. Adotando a negligência benigna ante sua condição de judeu, o que diverte `Danny´ mesmo, além do futebol e da política, é sua "identidade-passarela": bilingüe (francês e alemão), ele só conta no primeiro idioma, mas sonha indistintamente nos dois. "Guardei na cabeça um ou dois erros nas declinações do alemão para mostrar aos meus compatriotas teutônicos que não pertenço a eles completamente..." É romântica e espirituosa a versão que "Dany" oferece para a origem de sua "bastardia européia": "No desembarque das tropas aliadas na França, em junho de 44, meus pais fizeram amor na euforia das esperanças renascidas. Dali a nove meses, em abril de 45, lá vinha eu ao mundo. No dilema de saber se partiam ou não para os Estados Unidos, onde já se encontravam os amigos da família, como Hannah Arendt, meus pais esqueceram-se do meu registro de nascimento. E, nisso, fomos para a Alemanha, onde permaneci até a adolescência. Afinal, minha bastardia ou dupla identidade simboliza bem a evolução da Europa para a da cultura das mestiçagens."

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