Lygia Pape mostra obras inéditas em São Paulo

Lygia Pape nunca foi desses artistas que seguem um único caminho, mantendo-se fiel a um determinado pensamento ou material. Todas as armas servem para seduzir o espectador, atraindo-o para a obra graças a uma ampla gama de recursos que, muitas vezes, ultrapassam o campo meramente visual. Essa diversidade criativa se repete mais uma vez na exposição que a artista inaugura amanhã à noite em São Paulo, que congregará quatro grupos diferentes de trabalho. Desrespeitando uma lógica linear e progressista, ela consegue ao mesmo tempo propor ineditismo e diálogo com os trabalhos que foi realizando ao longo de quase meio século de dedicação à arte.Logo na entrada da exposição, o visitante se deparará com o Livro dos Caminhos, projeto idealizado por ela no início da década de 60 e só agora concretizado. Esse poema visual, da mesma família de outros trabalhos antológicos como o Livro do Tempo e o Livro da Arquitetura é uma construção modular composta por estruturas que, segundo a artista, lembram muito os edifícios de São Paulo, "São como se fossem um retrato da cidade", diz ela.Outro grupo de obras da exposição é composto pelas peças de poliuretano, material que fascina Lygia por seu caráter mágico (a massa se forma a partir da união de dois materiais diferentes e se expande de forma livre) e por sua extrema leveza. Na série Água (na qual o poliuretano serve de suporte a garrafas coloridas), a artista agrega ainda a questão da cor como elemento fundamental.Teia, por sua vez, é um tipo de trabalho recorrente na história de Lygia. Os elementos relacionados às aranhas têm estreita relação com a trajetória da artista. Às vezes até como uma ironia do destino, já que há cerca de três semanas, quando já preparava a exposição, um desses aracnídeos picou-a, dificultando muito o seu trabalho.Esse problema está ligeiramente relacionado com o fato de a quarta obra da mostra só chegar à galeria uma semana após a inauguração. Mas, na verdade, a artista diz ter gostado da idéia de diluir a mostra no tempo, revelando apenas um pouco mais tarde a obra Seu Particular, formada por duas tendas brancas na qual o espectador fica completamente isolado e voltado apenas para si - exatamente ao contrário do socializante Divisor, apresentado por Lygia Pape no final da década de 60.Elogio à pintura - Dividindo o espaço da galeria com Lygia Pape está Nicola Tyson, uma artista inglesa radicada em Nova York que trabalha de maneira totalmente intuitiva num campo bastante tradicional: a pintura e o desenho. Tendo iniciado sua trajetória com obras voltadas à questão da feminilidade, Nicola foi pouco a pouco sentindo necessidade de se livrar das amarras teóricas e dar vazão ao inconsciente, passando a dar forma a figuras muitas vezes estranhas, de formas curiosas que a artista reconhece como auto-retratos (mesmo que apenas uma das pinturas da exposição possa ser identificada como tal).No entanto, quem espera encontrar uma espécie de surrealismo atualizado se decepcionará. Apesar da forma quase displicente com que são feitas - reforçando seu caráter espontâneo -, as obras de Nicola pertencem ao universo clássico, não só nos temas (retratos, naturezas-mortas, paisagens...), mas na preocupação central com o desenho.Lygia Pape e Nicola Tyson - De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das 10 às 14 horas. Galeria Camargo Vilaça. Rua Fradique Coutinho, 1.500, tel. 3032-7066. Até 20/6. Abertura amanhã (24), às 20 horas.

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