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João Wady Cury
Palco, plateia e coxia
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Lygia, Lygia, Lygia

Eu poderia passar a vida ouvindo-a falar, não importa o assunto, aliás, como acontece nas histórias de seus livros

João Wady Cury, O Estado de S. Paulo

22 de abril de 2021 | 09h36

Não tenho nenhuma história relevante para contar sobre Lygia Fagundes Telles, que completou 98 anos na segunda-feira, 19. Devo tê-la entrevistado duas ou três vezes para os cadernos de cultura em que trabalhei, e noves fora sua inteligência e sedução para contar histórias ou mesmo narrar como chegou a situações específicas de escrita, não há nada a falar. Somente suspirar. Suspiro e confesso: poderia ter casado com Lygia. Casaria, mas ela nunca descobriria. Nem tudo se fala, o mistério é o segredo. 

Poderia passar a vida ouvindo-a falar, não importa o assunto, aliás, como acontece nas histórias de seus livros, sejam novos (amzn.to/3gnUbeJ) ou usados (bit.ly/3eiuauH). Lembro bem de quando essa admiração começou. Final dos anos 1970, Conjunto Nacional, a Livraria Cultura era o lugar da literatura em São Paulo. Caso quisesse encontrar seus ídolos bastava pegar o elétrico, subir a Augusta e saltar no predião projetado por David Libeskind para tropeçar em qualquer um deles. Era a versão pública do carioca Sabadoyle, os encontros aos sábados na casa de Plínio Doyle (bit.ly/3nik1SV) a partir dos anos 60. A vantagem é que aqui tínhamos

Lygia em carne e osso, e Hilda Hilst, estonteante, os simpaticíssimos Marcos Rey e Mario Chamie, o nosso querido Loyola e também a turma mais jovem, Caio Fernando Abreu e Mario Prata.

 

CLARICE POR LYGIA

Ainda rapazola, não conhecia ninguém, não falava com ninguém, soltava esporadicamente um sim ou claro e, nos arroubos, um não acredito ou jura? Ouvia o que era dito e sacolejava a cabeça como se estivesse entendendo o que diziam. Pulava de rodinha em rodinha, amealhando histórias e sensações, como um papagaio de pirata urbano. Pobre imberbe criatura vestida com calça rancheira.

Parava sempre perto de Lygia. Causava estupor aquele encanto de mulher falando. Era coisa de perder os sentidos e talvez pudesse mesmo gritar: “Me leve, Lygia, me leve. Largo mulher e filhos”, mesmo não tendo nem uma nem outros. Ela não ouvia, claro, porque eu estava mudo, ouvindo-a discorrer com charme sobre qualquer assunto, como uma unha encravada, o que nunca era o caso.

Mas a internet salva e uma imitação de como falava a sua amiga Clarice, ucraniana criada em Pernambuco, é algo imperdível (bit.ly/3eiwhOY). Ou ainda a narrativa de como conheceu Monteiro Lobato, em uma entrevista ao jornalista Ubiratan Brasil (youtu.be/vVTpCDG7LuY). Mas a tacada final é como define seus personagens: “são como nós mesmos, querem viver mais tempo” (vimeo.com/51459974). Ah, Lygia, Lygia, Lygia. 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DO INFANTIL ‘ZIIIM’ E DE ‘ENQUANTO ELES CHORAM, EU VENDO LENÇOS

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