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Lygia Clark, o encontro em meio ao abandono

Museu de Arte Moderna de Nova York dedica mostra à artista brasileira

Tonica Chagas, Nova York - Especial para O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2014 | 02h10

Mais de meio século depois que a primeira série de Bichos foi premiada pelo júri internacional da 6.ª Bienal de São Paulo, em 1961, como melhor escultura de um artista brasileiro, aquelas mesmas estruturas de múltiplas configurações e os trabalhos anteriores e posteriores a elas produzidos por Lygia Clark (1920- 1988) começam a ser vistos, nos Estados Unidos, como um marco na arte contemporânea ocidental. Lygia Clark: The Abandonment of Art, 1948-1988, que o Museum of Modern Art (MoMA) de Nova York abre ao público no dia 10, apresenta a obra de Lygia como a de uma pesquisadora consistente que delimita uma fronteira entre contemplação e imersão, entre arte e terapia, entre a arte e a não-arte.

"O incrível legado de Lygia Clark é o de ela ter quebrado mitos e reposicionado a arte como uma relação de experiências e não o objetivo máximo do processo artístico", diz o venezuelano Luis Pérez-Oramas, chefe do Departamento de Arte Latino-americana do MoMA. Curador da 30.ª Bienal de São Paulo, em 2012, Oramas organizou a retrospectiva em parceria com a americana Connie Butler, curadora-chefe do Hammer Museum, de Los Angeles, que até o ano passado era curadora-chefe do setor de desenhos do MoMA.

Primeira retrospectiva da artista brasileira nos EUA, a exposição traz ao museu nova-iorquino cerca de 300 trabalhos de Lygia e mais uma série extensa de programas educativos e eventos paralelos que prosseguem até seu encerramento, em 24 de agosto. Com uma espinha cronológica, as obras foram agrupadas pela curadoria em três temas pontuais - abstracionismo, neoconcretismo e o abandono da arte, fase que dá título à exposição e se refere ao período que Lygia dedicou a aplicar suas experiências como preparação de pacientes para psicanálise.

Esses três capítulos, no entanto, se justapõem no espaço quase totalmente aberto entre as galerias onde a exposição está instalada, passando a sensação de fluidez e continuidade que os curadores encontraram ao longo de toda a carreira de Lygia. "O 'abandono' apresentado na última parte já pode ser notado desde as primeiras pinturas dela", aponta Connie.

Linha orgânica. Casada e mãe de três filhos, a mineira Lygia Clark vai para o Rio de Janeiro em 1947 e começa a estudar arte com o paisagista Burle Marx. Por duas vezes ela muda para Paris: a primeira entre 1950 e 1952, quando estuda com Fernand Léger, e a segunda entre 1970 e 1976, quando leciona na Sorbonne e faz análise com o freudiano Pierre Fédida. É na França que ela se inclina para as possibilidades terapêuticas da arte sensorial.

Entre esses dois intervalos, ela desenvolve no Brasil uma obra inovadora, como integrante do Grupo Frente e também uma das fundadoras do Grupo Neoconcreto. Com uma geração de artistas empurrando a ideia de pintura para novas direções, a arte brasileira entra num ritmo de grande produtividade e a de Lygia se singulariza com a descoberta do que ela chama de linha orgânica.

"Vendo a linha não como uma realidade gráfica mas como separação", conforme analisa Oramas, ela começa a estruturar as pinturas como multipartes, não com linhas desenhadas, mas pelo encontro entre superfícies diferentes que se modulam. O curador lembra que, para Lygia, a fim de modular uma superfície inteira, "o artista também pode investigar linhas que funcionem como portas, como conexões entre materiais". Na galeria de quadros do período final dos anos 40 até obras do fim dos 50, há cópias de maquetes para demonstrar que é por meio da arquitetura que Lygia pensa a sua pintura.

'Caminhando'. Das pinturas passa-se para a fase neoconcreta, dominada pelos Bichos e os Trepantes de Lygia. Durante os cinco anos dedicados à produção da retrospectiva, os curadores entenderam que o público deveria manipular as obras a fim de percebe-las na intenção para a qual foram criadas. "O tempo todo pedimos aos frequentadores de museus que não toquem nas obras de arte e agora fazemos o contrário", comenta Connie Butler.

Nas últimas semanas, foram treinados grupos de pessoas para oferecer e facilitar ao público o manuseio e uso de réplicas de várias criações da artista brasileira. Tesouras e papel, por exemplo, são o material básico para repetir a experiência de Caminhando, trabalho de 1963 feito a partir de uma Faixa de Moebius. Essa figura, que parece o número oito na horizontal, é obtida pela junção das duas extremidades de uma fita, dando-se meia volta em uma delas.

"Ao cortar a faixa seguindo seu traçado da direita para a esquerda, da esquerda para a direita até o pedaço de papel ficar tão fino que não dá mais para cortar, Lygia conclui que a obra é o ato e o autor é o espectador, neste caso aquele que corta o papel", diz Oramas, salientando ser este um momento tão importante na obra dela quanto o da linha orgânica. E é daí que parte o trabalho relacional desenvolvido por Lygia, que deixa de se considerar artista para ajudar pacientes com problemas psiquiátricos.

Terapia. As "proposições", como as chamava sua autora, demandam a imersão do espectador. Mas isso impõe ao museu, com frequência diária em torno de 11 mil pessoas, o desafio de permitir a noção de terapia. "Queremos respeitar Lygia e não dar um aspecto de espetáculo para esses trabalhos", sublinha Connie Butler. Por isso, a reprodução das experiências sensoriais, como a de Baba Antropofágica, será realizada apenas algumas vezes por semana. Por ser de imersão total em seu interior, a instalação A Casa é o Corpo, produzida para a Bienal de Veneza de 1968 e que deve funcionar como rememorização do processo de nascimento, ocupa um espaço exclusivo dois andares abaixo do corpo principal da retrospectiva.

Todas as fases da exposição, desde a pré-montagem à abertura ao público, estão sendo registradas em vídeo para a produção de um documentário. Com direção de Daniela Thomas, o filme terá em torno de 30 minutos e deve estrear, ainda este ano, no Brasil e na Inglaterra.

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