Lydia Davis e uma literatura que se faz de narrativas curtas

Hoje, ela divide o palco com o irlandês John Banville numa conversa sobre os limites da prosa

MARIA FERNANDA RODRIGUES , ENVIADA ESPECIAL / PARATY, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2013 | 02h09

A pergunta "Onde seu pai vive", dirigida à escritora americana Lydia Davis, deu origem a um dos mais belos contos de Tipos de Perturbação, que está saindo agora no Brasil pela Companhia das Letras. Já bem idoso, ele vivia num asilo. "Respondi, mas me toquei que na verdade ele não estava vivendo - estava morrendo", contou, em Paraty, às vésperas de sua participação na Flip. Hoje, ela divide o palco com o irlandês John Banville numa conversa sobre os limites da prosa.

Questões Gramaticais, o tal conto, tem apenas três páginas. Nelas, a autora analisa a linguagem que usamos quando nos referimos a alguém morto ou a alguém que está morrendo. Ela escreve: "Depois, quando ele se transformar em cinzas, será que vou apontar para as cinzas e dizer, 'Aquilo é o meu pai'? Ou será que direi 'Aquilo era o meu pai'? Ou 'Aquelas cinzas eram o meu pai'? Ou 'Aquelas cinzas são o que foi o meu pai'?" O medo da perda e a dúvida sobre como será a relação com as pessoas queridas quando elas não mais viverem estão ali disfarçadas na análise gramatical. "Uma pergunta me levou à outra e à outra e deixei que o texto fosse até onde ele quisesse ir. Quando vi que não tinha mais perguntas, parei e não conclui nada."

De perguntas assim e conversas entreouvidas por aí, Lydia Davis, que completa 66 anos no dia 15, colhe material para possíveis histórias. Ela já experimentou escrever romance e não gostou. Fez poesia quando jovem e ainda escreve um pouco, mas não se considera poeta. É do conto, mesmo, que ela gosta. Dos curtos. E apesar do senso comum dizer que o gênero está longe de ser sucesso comercial, ela segue escrevendo, publicando - embora seus editores já tenham recusado uma nova coletânea enquanto ela não entregasse o romance prometido -, e sendo premiada. Um mês antes da viagem ao Brasil, ela ganhou um dos mais importantes prêmios literários de língua inglesa - o Man Booker Prize. "Não esperava ganhar. Alguns dos finalistas eram mais velhos do que eu ou eram mais conceituados. De verdade, fiquei surpresa. Eu sempre tive fãs, mas nunca estive no mainstream."

Lydia conta que tem dificuldade de organizar as ideias quando resolve preparar algo mais longo. Escrever um conto, porém, não é necessariamente mais fácil. "No conto, nenhuma frase pode sobrar. As pessoas não te perdoam", brinca.

O leitor mais distraído pode achar que a americana Lydia Davis trata em seus contos de lagartas, bengalas ou de visitas que soltam pum. Mas ao falar sobre isso tudo ela fala do humano: as perturbações, as frustrações, o desconforto diante do outro e da vida, a inadequação, o esquecimento, a tentativa de romper com o estado das coisas e de tentar chegar (às vezes de novo) no outro, a morte.

São textos delicados. Por vezes tristes. Mas escrevê-los traz mais alegria do que peso à autora. "Na maior parte do tempo enquanto escrevo contos muito pequenos não há nada além de prazer na escrita." As histórias mais longas, que precisam de certa organização, complicam um pouco a vida da escritora que, quando mais menina, leu Machado de Assis e só aqui descobriu que ele é um dos grandes autores brasileiros, "que todo mundo tem que ler". Depois tentou Clarice Lispector. Quando pegou A Hora da Estrela pela primeira vez, largou o livro pela metade porque considerou a leitura difícil. Só anos mais tarde ela voltou à obra. Acabou achando "muito interessante as diversas camadas narrativas usadas pela escritora".

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