Lya Luft usa ambivalência contra punhal do tédio

Lya Luft inventa máscaras para mostrar o próprio rosto. Mas nem sempre esse rosto é o seu. Foi assim que ela estreou na literatura, há 20 anos, com As Parceiras: um romance escrito no paradoxo das inquietações. Até hoje, 12 livros depois, Lya é confundida com a sua própria ficção. Provocados pela atmosfera das histórias que ela escreve e dos autores que traduz, muitos leitores a imaginam uma mulher sombria, fúnebre, claustrofóbica. E Lya Luft é luminosa, adora filmes românticos, troca qualquer programa intelectual pelo convívio com a família ou por um papo com os seus amigos essenciais. Bem, para quem não tem o privilégio de conhecê-la um pouco mais de perto, essencial mesmo é ler o seu novo livro, Histórias do Tempo, publicado pela editora Mandarim (172 págs., R$ 18). Em uma fantástica mistura de delírio e reflexões sobre a vida, Lya leva o leitor a mergulhar nas contradições, no estilhaço dos rótulos. Hospedada no hotel de sempre, quando voa de Porto Alegre ao Rio, em Ipanema, a gaúcha aterrissou no restaurante para uma entrevista ao Grupo Estado. Grupo Estado - Em Histórias do Tempo, você escreve: "Preciso admitir que a ambivalência é a nossa salvação, para não morrermos na poeira da mesmice." Em que aspectos a ambivalência é uma bóia e o tédio é um punhal? Lya Luft - O tédio é pior que um punhal. Na realidade, o tédio é uma poeira insidiosa que vai nos sufocando. Mas o cotidiano também é um conforto. Precisamos ter determinados horários, precisamos dos passos familiares pelo corredor da nossa casa. Só quem já perdeu isso sabe o verdadeiro valor. Entretanto, muitas vezes, você não se dá mais tempo para escutar a si próprio e descobrir quais são os seus verdadeiros desejos. A ambivalência, o delírio, é a nossa salvação, é o que não nos deixa morrer soterrados nessa poeira. Por outro lado, essa poeira é que nos salva de enlouquecermos completamente. Precisamos também do cotidiano, da rotina. Mais uma vez, voltamos à ambivalência. Medésima e Altéria, as personagens do livro, se enfrentam mas também se complementam. Caminhamos em um fio muito tênue entre o possível e o desejado. Será que atravessamos esse fio devagar - ou correndo?Estamos sempre correndo. Afinal, o mundo é cheio de solicitações. Mas a rotina, de certa forma, nos mantém na superfície. Com ela, não conseguimos mergulhar, não conseguimos parar. Temos horror à quietude. Quando vemos uma criança quieta, por exemplo, geralmente dizemos: "Esse menino está muito quieto, deve estar doente." Ou então: "Meu marido anda muito calado, vai ver tem outra mulher." Isso tudo são armadilhas que forjamos para fugir das nossas mais profundas indagações. Armadilhas à parte, até que ponto, para você, escrever é se contradizer?Eu me contradigo o tempo todo. Aliás, digo e desdigo, faço e desfaço, invento e desinvento. Em meu novo livro, cada capítulo começa com um poema que eu fiz. Eu sou a minha própria contradição. Somos réus e reis da nossa contradição. Estamos mais para réus ou mais para reis?Na realidade, nos portamos como réus, mas deveríamos ser reis. Vivemos com a nossa culpa atávica, a nossa fragilidade, as nossas obrigações, a nossa autovitimização. Isso é uma coisa horrenda. As pessoas vivem se queixando das suas próprias decisões. Acima de tudo, temos que fazer as nossas escolhas e assinar embaixo delas. Precisamos pagar o preço dessas escolhas, sem reclamar. Provavelmente pelo fato de você sempre escrever na primeira pessoa, as suas ficções costumam ser confundidas com a realidade. Há leitores que realmente não separam o escritor dos seus personagens?Sim, é verdade. Isso hoje me diverte, mas já me aborreceu muito. Envelhecer, nesse sentido, é uma coisa belíssima, porque ficamos muito mais à vontade dentro da nossa própria pele. Mas essa confusão era uma coisa realmente chata, ficava aborrecida com isso. No começo, as pessoas achavam que eu tinha um avô tarado, um pai cruel, um marido louco, etc. O Hélio Pelegrino dizia muito bem: "O psicanalista e o escritor são cabides dos fantasmas das pessoas." Aliás, o psicanalista Hélio Pelegrino costumava dizer: "Lya, toda noite você deveria acender uma vela para os personagens que enlouqueceram em seu lugar". Além dessa catarse com a literatura, quais são os outros alimentos da sua lucidez?Cheguei a fazer terapia durante quatro anos, e isso me ajudou muito. A vida cotidiana é um grande alimento para a minha lucidez. A administração da vida burocrática me chateia, mas o que me faz bem mesmo são os afetos. A família e os amigos essenciais são um grande alimento da minha lucidez. Tenho grupos de amigos para quem eu sou só a Lya. Não falamos sobre literatura. Jamais fiz pose de escritora. Tenho horror quando estou numa reunião informal, num jantar, e para se fazer de interessante alguém senta do meu lado, e começa a falar sobre literatura. Eu quero ser só eu. Sou escritora só quando estou no meu computador, ou quando estou assim, dando uma entrevista, num seminário, etc. Mas tem gente que adora, né? Tem gente que lança livro e compra guarda-roupa de escritor, compra fala de escritor, compra pose de escritor. Isso é patético. No começo da entrevista, você disse que estamos sempre correndo. No meio dessa correria, é necessário identificarmos o que é urgente e o que realmente é importante?Sim, é aquela coisa de botar a criança no inglês, no balé, no curso de informática... É aquela coisa de ficar andando de um lado para o outro por obrigação. Ah, no fim de semana a gente tem de sair, tem de passear... Por que, no fim de semana, não podemos ficar quietos em casa? Por que todo sábado à noite eu tenho de sair? De repente, quero ficar em casa. Aí uma pessoa me pergunta: "Sábado à noite e você está em casa? Você está chateada?" Posso muito bem ficar em casa vendo um bom filme americano, sem querer ver filme cult, sem querer ver filme complicado. Em geral, é complicado as pessoas entenderem isso?Ah, levei muito tempo para convencer a dona da locadora de vídeo perto da minha casa de que eu não queria ver filme francês, não queria ver filme alemão, não queria ver filme complexo. Adoro filmes românticos e policiais americanos. Também gosto muito de me divertir vendo filmes de mistério. É que eu passo o dia inteiro no computador, traduzindo Thomas Mann, Virginia Wolff, e outros escritores. Pessoalmente, prefiro muito mais ver O Sexto Sentido ou rever O Silêncio dos Inocentes. Você estreou na literatura há 20 anos com o romance As Parceiras. Uma frase sua de Histórias do Tempo: "Escrevendo corro todos os riscos (...)". Depois de duas décadas, qual o grande risco de escrever?Existem riscos múltiplos. Um deles é a permanente exposição das nossas inquietações e das nossas aventuras interiores diante do leitor. Esse é o risco da Medésima. Qual é o risco da Altéria, o grande risco da alma?Na minha fantasia, a Altéria não se importa com os riscos. Altéria realmente está acima de todos os riscos, acima de todas as concessões, acima de todos os medos. Ela é o meu salto no abismo.

Agencia Estado,

09 de dezembro de 2000 | 19h19

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