Divulgação
Divulgação

Lya Luft transforma em poesia a dor pela perda do marido

'O Lado Fatal', que narra o curto relacionamento com o psicanalista Hélio Pellegrino, volta às livrarias

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

13 Novembro 2011 | 00h30

O sono tornou-se inquieto por alguns instantes. "Sonhei que estavam me matando", comentou o psicanalista Hélio Pellegrino com a mulher, a escritora e tradutora Lya Luft, durante a madrugada da segunda-feira, dia 21 de março de 1988. Tema comum na obra de ambos, a morte parecia ser apenas objeto de inspiração. Infelizmente, não era - incomodado por um desconforto gástrico, Pellegrino foi internado naquela manhã, depois de constatado um pequeno infarto. E, quando parecia que a recuperação se finalizava, uma parada cardíaca fulminante o matou. Era 23 de março. Ele estava com 64 anos e com muitos projetos. Na cabeceira do hospital, repousava o livro Les Grands Cimetières Sous la Lune, de Georges Bernanos (1888-1948), um libelo contra a ditadura espanhola de Franco, que ambos liam juntos.

A perda súbita transtornou Lya. Suspensa da realidade pela dor, ela decidiu transformar o travo no coração em poesia, a fim de se salvar da loucura e até da própria morte. Nascia O Lado Fatal, caminho que encontrou para perpetuar uma relação tão bruscamente interrompida.

Trata-se de 40 poemas escritos num rompante, um por dia, que conciliam sentimentos contraditórios como raiva e pesar, esperança e desalento, dor e esperança. O perfil fragmentado do homem que tanto amou. "Foi o caminho que encontrei para compartilhar com todos minha convivência com um alguém particular", comenta Lya que, anos depois, ao iniciar uma nova vida, decidiu tirar o livro de circulação - não renegava a obra, mas acreditava que o sentimento ali traduzido tornou-se particular.

A força de O Lado Fatal, porém, acabou se impondo. Depois de se habituar a ser cobrada pelos leitores e de acompanhar infinitas reproduções dos versos na internet, Lya telefonou para Luciana Villas-Boas - diretora editorial da Record (que publica a obra da autora) e batalhadora pela volta da obra às livrarias - e concedeu o esperado "sim". "O tempo passou, encontrei uma nova felicidade pessoal. Tais mudanças me convenceram de que o livro não pertence a mim, mas aos meus leitores."

Outro motivo foi o interesse do ator Juca de Oliveira em comandar uma montagem teatral do texto. "Eu o conheço há muito tempo, confio em sua sensibilidade e sei que será muito respeitoso", comenta Lya, que já aprovara, em 1995, uma encenação estrelada por Beatriz Segall e dirigida por Márcio Vianna. "Foi uma peça linda, que tinha a mesma intenção de quando escrevi o livro: despertar nas pessoas um encantamento amoroso."

Lya faz uma deferência ao Estado ao conversar por telefone, desde Porto Alegre. "Aceitei relançar o livro, mas não queria dar entrevistas", explica, abrindo uma única exceção. Ela conta que fez pequenos reparos no texto, atualizando alguns pontos, mas mantendo sua integridade. "O Lado Fatal não foi pensada como uma obra literária, pois foi um desabafo em um momento sombrio."

O relacionamento com Hélio Pellegrino foi curto (27 meses) mas intenso. Eles se conheceram em abril de 1985, durante um congresso de escritores em São Paulo. Respeitavam-se, mas sabiam apenas o nome do outro. Foram apresentados por Nélida Piñon e conversaram pouco mais de 20 minutos, tempo suficiente para despertar mútua curiosidade. Ele começou a ler seus romances e a telefonar para Porto Alegre - revelou uma visão particular da obra dela que a encantou.

Nove meses depois, Lya tomou a decisão: em uma noite de chuva, fez as malas e tomou um avião para o Rio, deixando para trás um sólido casamento de 22 anos com o filólogo Celso Luft, uma grande casa, três filhos. "Rezava para o avião cair, para eu não ter de enfrentar a situação", disse, em uma entrevista dada na época.

Felizmente, nada aconteceu, apenas o início de uma nova fase. Ela estava com 46 anos; ele, com 61 e também uma consolidada história de vida (dois casamentos, seis filhos). Pareciam, no entanto, jovens fazendo descobertas. "Aquele que eu amei era um visionário: levava-me à sua terra, onde, ébrios de tanta luz e tanto céu, percorríamos a sua juventude", diz ela, no poema 12. "Quem eu amei era da banda dos visionários: capaz de morrer sem abdicar do sonho."

Ágil, inquieto, Pellegrino sempre soube que amor e morte caminham juntos. Tais temas fascinavam o casal, interessado em um assunto comum: a alma humana. O psicanalista, aliás, acostumara-se com a finitude desde jovem, quando, aos 18 anos, sofreu um infarto sério. Desde então, mantinha cuidados espartanos, vigiando a alimentação, tomando os remédios nos horários devidos.

"Ele era um homem impaciente: brigava no trânsito, detestava filas, batia portas com força quando perdia suas coisas", observa Lya no poema 16. Mais adiante, a redenção: "Mas quando um dia chorei porque falou alto comigo, mandou-me rosas que espalhei pela casa toda."

A separação foi tortuosa, imperdoável, mas deixou lições - o respeito pela morte fez com que Lya aprendesse a amar a vida.

Autora prepara um novo romance

Lya Luft já trabalha em O Espelho Que nos Observa. Inicialmente, ela conta, o livro teria o título Uma História de Assombros. "Mas nada ainda é definitivo."

Militância

Nascido em 1924, Hélio Pellegrino foi um psicanalista célebre pela militância de esquerda. Foi amigo de Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Nélson Rodrigues.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.