Luzes sobre Macbeth

Em sua versão da obra de Verdi, o diretor Robert Wilson usa cores e sombras para desenhar a tragédia

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2012 | 02h10

Quem se debruça sobre um clássico vê-se invariavelmente em uma encruzilhada: "Como ser fiel ao mestre sem ser servil a ele?", questiona Robert Wilson. Para o celebrado diretor norte-americano, foi esse o dilema vivido por Giuseppe Verdi ao decidir adaptar a obra de Shakespeare. E é essa também a pergunta que o norteia na sua concepção para a ópera Macbeth.

Na montagem, que faz sua estreia mundial amanhã no Teatro Municipal de São Paulo, Wilson não ousou nenhum tipo de alteração no libreto original. Tampouco buscou desconstruir ou atualizar seu enredo. "É ridícula essa coisa de querer colocar Shakespeare no supermercado", sentenciou o encenador em conversa com o Estado.

Distante de qualquer referência prosaica, o Macbeth que ele constrói não se localiza em tempo nenhum. O universo que delineia não incorre em nenhuma imitação do real. Sua cenografia abstrata é isenta de signos de época.

Está interessado em algum substrato essencial. Não soterra a ambição desmedida com a qual Shakespeare coloriu seus personagens nem abafa a música de Verdi. Tudo isso sem abrir mão da prerrogativa de ser senhor absoluto da cena.

É com a iluminação que Wilson constrói a Escócia e o soturno castelo de Macbeth. Sobre fundo e figurinos majoritariamente negros, abre clarões. Desenha com variações de cinza, azul e branco as cenas da tragédia. Seu espetáculo está na luz. Ou nos mundos imprevistos que ela descortina.

No teatro, Wilson não solicita aos atores que "sintam" nada. Eles são um corpo, uma voz. "Todo o estudo teatral me parece excessivamente intelectual. É o que você vê quando vai ao teatro. Pessoas pensando sobre como é representar. É possível pensar com o corpo", sentencia.

A regra também vale aqui. Resultado de uma coprodução entre a casa lírica paulistana, a Change Performing Arts, de Milão, e o Teatro Comunal de Bolonha, a montagem traz nos papéis principais os italianos Angelo Veccia (Macbeth), Carlo Cigni (Banco) e Anna Pirozzi (Lady Macbeth).

No palco, os intérpretes surgem guiados por um gestual milimetricamente decupado. Não raro, apenas mãos erguidas que irrompem de figuras quase imóveis. Eliminam-se os arroubos, mas não a contundência.

Há métrica, ritmo, um rigor de dança que pauta essa movimentação no palco. "Faço tudo inicialmente em silêncio", conta ele. "Só depois ponho os sons. Esse tem sido o meu modo de trabalhar. Aprender a ouvir o silêncio. Compreender o movimento e a imobilidade."

Os rostos dos cantores estão pintados de branco. Rastros do teatro Kabuki, de Buster Keaton e Charles Chaplin - referências constantes na arte de Wilson.

Macbeth é o nobre que, incitado pela mulher e pela ganância, resolve matar o rei para lhe roubar o trono. Encarnado por Angelo Veccia, tem a gravidade trágica que nossa tradição dramática insiste em desbastar. Já Anna Pirozzi arrebata pela presença austera com a qual reveste sua Lady Macbeth e, mais importante, pela peculiaridade de sua voz.

Tão peculiar, aliás, quanto requer a personagem concebida por Verdi. Para dar conta da personalidade calculada e maquiavélica de Lady Macbeth, o compositor requeria uma soprano que tivesse mais do que uma "bela" voz. Ambicionava um timbre raro, que carregasse uma tonalidade áspera, que fosse, a um só tempo, acre e sedutor.

Dois momentos de Verdi. Não é apenas a soprano que faz dessa ópera uma criação particular. A peça - que São Paulo verá com a Orquestra Sinfônica Municipal, o Coral Lírico e sob regência do maestro Abel Rocha - figura em lugar único na trajetória de Verdi.

Marca a primeira de suas incursões pela ficção de Shakespeare, autor que seria, declaradamente, uma inspiração constante. Outro ponto que a distingue é a criação em dois momentos. Sua versão original antecede o período da plenitude romântica do músico, quando compôs Rigoletto e A Traviata. Revisada em 1865, incorporou modificações e acréscimos. É obra que une as ideias da juventude e prenuncia as convicções da maturidade. Um lampejo de sua "nova ópera", na qual colocaria a música para servir a narrativa.

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