Luzes, câmera e fas hion!

Mostra, shows e palestras celebram vigor da atual produção dos filmes de moda

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2012 | 02h08

A produção de filmes fashion nunca esteve tão vigorosa. Além de terem se tornado item crucial nos editorias de moda, adquirem status de arte e ganham cada vez mais espaço no concorrido circuito do cinema. O gênero anda tão em voga que já conta com mostras exclusivas nos maiores festivais internacionais e conquista espaço até mesmo ao lado dos filmes ''comuns''. Haja vista The Miu Miu Women's Tales, série que a Prada produziu e que contou com sessões no Festival de Veneza, em setembro; a carreira internacional de September Issue, documentário que revela os bastidores da Vogue America e sua lendária editora Anna Wintour; a série Lady Dior, estrelada por Marion Cotillard, que a grife exibe em seu site, e até mesmo o curta brasileiro Polaroid Circus, que concorreu nos festivais de Paulínia e Gramado, onde levou o prêmio de melhor fotografia.

Uma amostra representativa desta atual produção brasileira e internacional poderá ser vista nesta semana no São Paulo Fashion Film Festival, o primeiro grande festival do Brasil dedicado aos filmes de moda. O SPFFF ocorre amanhã e quarta na Cinemateca Brasileira e traz, além da mostra de filmes - selecionados entre dezenas de inscritos de diversos países, formatos, estilos - workshops e palestras com profissionais, shows, um set de filmagem completamente equipado e um prêmio - uma câmera Epic-M Monochrome da RED, que será entregue na quinta à noite pela top Isabelli Fontana.

Mas, afinal, o que é exatamente um filme fashion? A definição é tão difícil quanto a catalogação de quantas vertentes de filmes de moda existem. "Esta é uma área que está ainda se afirmando e em que são possíveis muitas experimentações, não há definição precisa. Blade Runner do Ridley Scott é um filme fashion, por exemplo. Mas certo é que é todo aquele que tem a estética, a moda, a roupa, um perfume, um estilo, em primeiro plano", explica o fotógrafo e diretor Jacques Dequeker que, ao lado do diretor e ator Marcos Mello, criou o SPFFF. "A ideia de fazer um evento assim no Brasil surgiu há dois anos, quando começamos a frequentar os festivais do gênero no exterior, como o de La Jolla, na Califórnia. Percebemos que havia este potencial a ser explorado aqui", contam os realizadores, que assinam, aliás, a direção de Polaroid Circus, integrante do SPFFF. "Com este curta, unimos cinema e moda ao contar a história de uma garota que vive a rotina solitária de modelo em Paris. Sentimos também, ao exibi-lo nos festivais, que ainda há preconceito. Mas é questão de tempo para que isso mude", comenta Mello.

A história de Mello e Dequeker com os fashion filmes começou muito antes. "Há mais de cinco anos venho observando o que ocorria no exterior. Comecei a ver que os estrangeiros estavam já aliando o vídeo às campanhas das grifes, enquanto no Brasil ninguém ainda usava a linguagem", conta Dequeker, um dos mais ativos e prestigiados fotógrafos de moda do País.

Já Mello, por sua vez, trabalhava com cinema, mas se sentia frustrado com o resultado estético dos curtas que produzia. "Filmávamos em vídeo, o que nunca nos dava a qualidade da película de cinema. E isso me incomodava muito. Quando a RED surgiu, isso mudou e decidi comprar uma. Pouco depois o Dequeker me convidou para contar as histórias da moda com ele, foi a chance de unir conteúdo e técnica", conta Mello.

A partir daí, a dupla, que integra a equipe da produtora Cavallaria, passou a oferecer fashion filmes para seus clientes. "No começo pouca gente entendia o potencial desta mudança que veio com a democratização da tecnologia, mas aos poucos o Brasil também está entrando de vez nesta tendência. Com um filme, posso congelar os frames e ter uma pose que não poderia ter antes, sem contar que uma história sobrevive além da campanha publicitária. É outra forma de se fazer e pensar moda e cinema", acrescenta o fotógrafo.

Para falar dos novos modos de produção, o SPFFF vai contar com a participação de profissionais que irão ministrar workshops. A lista inclui o maquiador Fernando Torquatto, o diretor de moda da revista Vogue, Giovanni Frasson, o compositor de trilhas sonoras para filmes Alexandre Guerra, e a preparadora de elenco Fátima Toledo. "Ainda há muito o que se aprender. Tudo muda quando se acrescenta o movimento a um ensaio, da maquiagem à luz, da dramaturgia à trilha sonora, que passam a existir. O formato, que pode ser visto tanto na TV, no cinema, na internet, é um híbrido. E por isso é tão instigante. Não há limites", comenta a dupla de diretores do SPFFF.

Ainda que o gênero varie desde a publicidade até os filmes produzidos por Andy Warhol nos anos 60, passando por Prê-à-Porter (de Robert Altman), a inclusão dos filmes de moda no mercado cinematográfico veio para ficar. Muito por isso, a escolha da Cinemateca por parte dos idealizadores do festival não foi por acaso. "Poderíamos levar o SPFFF para uma galeria, um cinema de shopping, mas queríamos exatamente mostrar que o conceito de cinema hoje é muito mais amplo", comentam os realizadores.

Mirando na formação de público, que virá mais maciçamente com a segunda edição do festival em 2013, uma vez que esta primeira edição está mais direcionada para profissionais, a dupla fez questão de trazer filmes como Loom, longa inédito de Tony e Ridley Scott; Girls on Film, da prestigiada dupla de fotógrafos Inez&Vinoodh; Beijing Love, de John Paul Pietrus; Looking for The Sun, de Marcus Ohlsson (que ilustra a capa do Caderno 2); Ballistic, de Taki Bibelas; entre outros. Como já é tendência, todos os citados podem ser assistidos online via YouTube. No site do SPFFF (www.spfff.com.br) também é possível assistir a vários filmetes produzidos especialmente para o evento.

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