Luz sobre a arte de Duke Ellington

É possível conciliar entretenimento e criação de qualidade na música popular? A pesquisa rigorosa, que tradicionalmente só costumava frequentar a música clássica, começa a dar algumas respostas consistentes à questão. Uma nova geração de musicólogos norte-americanos vem se debruçando sobre algumas das figuras mais emblemáticas do universo popular. Fulmina preconceitos, elimina inverdades, constrói finalmente a verdadeira persona de celebrados criadores.

JOÃO MARCOS COELHO, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2010 | 00h00

Os exemplos mais recentes são duas biografias que mostram como sabíamos pouco sobre gênios como Thelonious Monk (1917-1982) e Duke Ellington (1899-1974). Na primeira, lançada em outubro do ano passado (Thelonious Monk - The Life and Times of An American Original, Ed. Free Press, 590 páginas, US$ 30 + frete via www.amazon.com), Robin D.G. Kelley, professor de História na Universidade de Southern California, prova que Monk não era o maluco que a mídia criou: era família, estudou piano clássico com um músico da Filarmônica de Nova York, adorava Bela Bartók. Seu jazz "originalíssimo" não veio do nada e não nasceu "pronto", como nos venderam durante décadas. Kelley foi o primeiro a ter acesso aos arquivos da família Monk.

O segundo exemplo, ainda mais notável, é Duke Ellington"s America, de Harvey G. Cohen, lançado mês passado nos EUA pela Editora da Universidade de Chicago (690 páginas, US$ 26 + frete na www.amazon.com). Cohen é professor no King"s College de Londres. E estabelece um divisor de águas nos estudos ellingtonianos, até agora restritos ao anedotário ou a ensaios musicológicos técnicos demais.

Cohen autointitula-se "historiador cultural" e aí está a chave para entendermos a novidade deste livro excepcional. Ele foi o primeiro a mergulhar nos milhares de documentos relativos a Duke Ellington do Smithsonian de Washington, instituição dedicada à preservação da história norte-americana. Como Kelley no caso de Monk, Cohen pesquisou por uma década. Mais do que o vida-e-obra ou descrições de turnês e gravações misturados com depoimentos de músicos próximos, Cohen tenta "entender as conquistas e contribuições de Ellington em mais de meio século no contexto das realidades pragmáticas que ele enfrentou e habilidosamente manipulou, enquanto tocava uma longa, variada e rara carreira no instável mundo da música popular". Ele também "documenta o status de Ellington como "herói cultural" e figura pública mundialmente famosa que "media tensões públicas", servindo como um totem para importantes e controvertidas mudanças que aconteceram na sociedade de modo mais amplo".

Nessa altura, Cohen joga luzes na pergunta que abre este artigo: "Milhares de documentos demonstram como ele mediou tensões entre a arte americana séria e popular, entre a cultura intelectual e a popular, entre criatividade e conformismo, democracia e comunismo, e especialmente entre negros e brancos. Com suas ações e sua obra, por mais de meio século ele mudou a cultura americana, transformando a paisagem artística e racial da nação."

Marketing puro. Cohen dedica mais da metade do livro esmiuçando seu último quarto de século de vida, a parte em geral menos estudada da carreira do Duke, em que ele quebrou sucessivamente vários paradigmas, chegando aos três ambiciosos e injustamente mal compreendidos concertos sacros. Nem por isso a primeira parte é descartável. Ali ele nos mostra por que e como Ellington foi capaz de manter uma carreira tão longa, sempre apoiado no sucesso popular e sem abrir mão da experimentação. Foi marketing puro. Acompanhem a equação objetiva de Cohen:

O problema: como artistas negros conseguem escrever sobre a história, caráter e problemas conectados com sua raça e criar a grande arte sem descambar para a polêmica?; e como estes artistas, vindos de minorias discriminadas, desenvolvem um público amplo o suficiente para sustentar sua arte, sem trair seus ideais?

A solução: uma campanha de marketing concebida por Ellington e seu empresário Irving Mills entre 1926 e 1939, que "vendeu" para a opinião pública sua imagem como a de um compositor sério e um gênio. "O mote era compará-lo", escreve Cohen, "aos artistas líderes brancos, populares e eruditos. Mills criou uma marca que traduzia atributos que reverberavam na imaginação da América: talento, respeitabilidade, orgulho de ser negro, história negra, liberdade, a própria América, enfim." Essas noções eram valorizadas na Grande Depressão dos anos 30 - e, nas décadas seguintes, o governo usou sua figura, como as de Louis Armstrong e Dizzy Gillespie, entre outros, como ferramentas na guerra fria cultural com a URSS nos cinco continentes.

A origem de Ellington, whashingtoniano de classe média, ajudou bastante. Como músico, ele elegantemente subvertia estereótipos de como os negros se vestiam, se comportavam e criavam. Sua música serviu como forma de ativismo que refletiu suas prioridades de longo prazo de infiltração, mais do que confronto, no universo da maioria branca.

Irving Mills (1894-1985), o marqueteiro dublê de empresário e editor musical, agiu como Benedito Lacerda com Pixinguinha. Ou seja, faturou muito "colocando seu nome em dúzias de composições de Ellington dos anos 20 e 30 que com certeza não escreveu", escreve Cohen. Clássicos geniais como Mood Indigo, Solitude, Sophisticated Lady, Black and Tan Phantasy e a antológica It Don"t Mean A Thing (If It Ain"t Got That Swing). Lacerda, que divulgou Pixinguinha, assina com ele clássicos de cuja criação passou longe. Gemas como Sofres Porque Queres, Naquele Tempo, Canhoto e Um a Zero.

Música para todos. Na verdade, e sem cinismo nenhum, Ellington foi gênio não só por sua música, mas sobretudo pela capacidade de fazer música para todo tipo de público, de modo a manter seu custoso instrumento particular: sua preciosa big band de 18 músicos notáveis, que receberam bons salários nas 52 semanas do ano por cinco décadas.

Para manter tudo isso, cultivou a rara habilidade de sempre apresentar novidades. E para vários públicos diferentes. Tomemos a temporada de 1956-7, por exemplo. Ele lançou um disco com o show do Newport Jazz Festival contendo uma nova suíte; um disco ligado a um especial de TV contando a história do jazz; uma celebração refinada das peças de Shakespeare na suíte Such Sweet Thunder, estreada num festival Shakespeare no Canadá; e o disco Ellington Indigos, uma seleção de standards bastante conhecidos, com alguns como Mood Indigo, é claro, do próprio Ellington. Havia ali uma penca de novidades: sofisticação com a suíte baseada em Shakespeare; manutenção do grande público por meio da televisão; pirotécnicos shows no mais celebrado festival de jazz, o Newport; e músicas conhecidíssimas num LP para continuar vendendo muito.

Faça você mesmo o teste. Estão nas lojas brasileiras três CDs que comprovam a tese de Cohen: 1) Black, Brown and Beige (Sony, R$ 15,80), a suíte obra-prima de 1943, que conta a história dos negros da chegada aos EUA até a vida urbana nos anos 40, estreada no Carnegie Hall, com atrevimentos como pôr Mahalia Jackson improvisando ao ler o Salmo 23 com Ellington e outros músicos ao fundo; 2) Ellington Indigos (Sony, R$ 16,80) de 1957, uma série de baladas para os casais dançarem de rosto colado; e 3) Live in Zurich 1950 (Biscoito Fino, R$ 38,40), modelo dos shows pioneiros de Ellington em teatros (chegou a fazer cem só em 1947).

Entertainer sem culpa. "Ele não via nenhuma contradição nisso", escreve Cohen. Era um artista sério e um entertainer sem culpas. "Durante a Segunda Guerra, no momento de sua maior exposição pública, podia-se ouvir suas composições tanto nas jukeboxes espalhadas por todo o país como ao vivo no Carnegie Hall."

Resumindo: sua música provou durante décadas que é possível a coexistência de grande popularidade com grande arte. Desde que haja, ao lado da competência musical, a paralela e complementar habilidade mercadológica. É doloroso que um músico tão talentoso quanto Ellington, o nosso Pixinguinha, por exemplo, seu contemporâneo exato, tenha se aposentado mais de 20 anos antes de morrer só porque não tinha um bom marqueteiro a seu lado.

Brasilidade. A historiadora Virgínia de Almeida Bessa remexe um pouco nisso no artigo Imagens da Escuta: Traduções Sonoras de Pixinguinha do recém-lançado livro coletivo História e Música no Brasil (Alameda), um bom exemplo de "história cultural" aplicada à música. A partir de 1952, "o autor de Carinhoso passou a ser cultuado - não mais como um músico ativo, mas como um museu vivo, um depositário das tradições populares do país, transformando-se, assim, em um dos principais símbolos musicais da brasilidade".

Ou seja, tiraram-lhe simplesmente o espaço social para continuar criando nos 21 anos de vida que ainda teria pela frente. Ele queria ser apenas um músico vivo, e não um museu vivo. Ao contrário, Ellington aprendeu direito a lição de Mills e continuou ativíssimo e músico de sucesso planetário até a sua morte, em 24 de maio de 1974.

JOÃO MARCOS COELHO É JORNALISTA E CRÍTICO MUSICAL

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