Luz perdida em meio ao lixo

Espetáculo Estamira respeita a particular verdade dos que estão entre o delírio e a realidade

O Estado de S.Paulo

26 Julho 2012 | 03h09

"Mãe" é a primeira palavra proferida por Estamira em meio a uma montanha de plástico no maior depósito de lixo a céu aberto da América Latina, o ironicamente chamado "jardim" Gramacho, região de Duque de Caxias, Estado do Rio.

Tecnicamente rotulado como "aterro sanitário", às margens da Baía de Guanabara, dele viviam 20 mil pessoas entre catadores e habitantes da Baixada Fluminense. Mas este não é um caso de economia do Terceiro Mundo (expressão hoje trocada por "países emergentes"), e sim da história de uma mulher, Estamira, conhecida depois do premiado filme de Marcos Prado.

O assunto da peça (e do documentário de Prado) é a visão messiânica de mundo dessa cidadã que carregava além da pobreza a condição de vítima de psicose progressiva. Apesar disso, ela trabalhou, teve filhos, uma casa razoavelmente organizada, sempre defendendo ideias entre o delírio e a realidade. Palavras soltas, recordações concretas, acessos de fúria, enfim, a particular verdade dos loucos.

Foi a partir do limbo existencial de Estamira, e de um caso parecido na sua própria família, que a atriz Dani Barros deu início ao texto em parceria com a diretora Beatriz Sayad. As duas foram mostrar que a insanidade de Estamira, como escreveu o cineasta Arnaldo Jabor, é uma linguagem de defesa diante de um mundo mais louco que ela. A sua loucura é narração de uma sabedoria torta, de uma anomalia, que a salva de uma realidade, esta sim, terrivelmente insana.

É fácil saber só pelos jornais e nos museu que há mendigos filósofos nas ruas da cidade e a arte de Artur Bispo do Rosário. Distantes do que realmente aconteceu, tomamos nota dos distúrbios mentais de Van Gogh, do sociólogo Max Weber ou do teatrólogo Antonin Artaud. O cinema e o espetáculo teatral, porém, não oferecem confortos da solidariedade asséptica.

A Estamira do filme é mais concretamente perturbada, enquanto a versão teatral está matizada por uma compreensão próxima ao filial. Com acréscimos de outros autores (Manoel de Barros e Ana Cristina Cesar) surge no palco a luta de uma senhora de mais de 60 anos contra homens rudes e hospitais frios, mas que sabe observar, por exemplo, "a magia dos sabiás". Como vários exilados da sociedade, vai navegando em um rio secreto de certezas e lamentos, saudades da mãe e exaltação de parentes apesar dos ruídos que incomodam sua mente.

O texto de Beatriz e Dani é diferente da contundência do filme. Tem mais lágrimas, compaixão e perguntas. Estamira é louca, mas com queixas precisas dos doutores, do comportamento masculino patriarcal e das instituições públicas. Reitera o brado de poeta-compositor Torquato Neto: "Aqui é o fim do mundo/ pão seco de cada dia/tropical melancolia/negra solidão." Sua existência cênica tem traços da moradora de Gramacho (finalmente desativado) e bastante das experiências pessoais de quem a trouxe ao palco. Dani Barros em determinado momento sai do papel e fala por si e por Estamira, o que amplia o impacto do que se assiste. A artista não tem idade para ter visto o desempenho de Rubens Corrêa em Diário de Um Louco em 1964. Como Estamira, o humilhado funcionário público desse conto de Nicolai Gogol apela para a mãe: "Salva o teu pobre filho. Derrama-lhe lágrimas sobre a cabeça doente."

Rubens (1931-1996) era extraordinário. O voo interpretativo de Dani lembra essas alturas. Há por trás dos seus 70 minutos de atuação uma equipe comandada com sutileza e paixão por Beatriz Sayad que chamou Georgette Fadel (interpretação), Luciana Oliveira e Marina Considera (voz e canto) e Cristina Wenzen. (preparação corporal). Esse esforço cria luz no meio do lixo e transforma a existência de Dona Estamira Gomes de Souza, que morreu em 2011, em um instante de teatro que olha a loucura com respeito.

Crítica: Jefferson Del Rios

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