Paulo Liebert/Estadão
Paulo Liebert/Estadão

Luz Oriental

Na exposição 'Penumbra', aberta a partir de amanhã, o pintor Marco Giannotti mostra telas que louvam a sombra e evocam o Japão

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

01 Fevereiro 2013 | 02h06

Assim como o escritor japonês Junichiro Tanizaki (1886-1965) usou a literatura para falar da beleza dos objetos e do papel da sombra como elemento revelador de sua harmonia, o pintor paulistano Marco Giannotti usa a pintura não para ilustrar Tanizaki, mas mostrar como estão equivocados aqueles que dividem o mundo entre Oriente e Ocidente. Um, afinal, é a sombra do outro. Se os artistas japoneses das xilogravuras Ukiyo-e estudaram os europeus do século 17 e aprenderam com eles noções de perspectiva, mais tarde, no século 19, eles iriam influenciar os impressionistas europeus, marcando de forma indelével a arte de Van Gogh. Giannotti, que passou um ano em Kyoto, a convite de uma universidade de lá, também não saiu incólume da experiência japonesa. Há, pelo menos, duas provas disso: a exposição Penumbra, que será aberta amanhã, às 11h, na Galeria Raquel Arnaud, e Diário de Kyoto, a ser inaugurada dia 21, no Instituto Tomie Ohtake.

Nessas mostras, o pintor lança dois livros que ilustram sua crença no nascimento da cor - autônoma, independente da redução científica newtoniana - por meio do embate entre luz e escuridão. No encerramento da primeira, marcado para o dia 9 de março, será a vez da terceira edição de Doutrina das Cores (Nova Alexandria, R$ 44), livro clássico de Goethe que Giannotti começou a traduzir há 20 anos, em seu mestrado de Filosofia. Antes, no dia 21 deste mês, ele lança Diário de Kyoto (Editora WMF/Martins Fontes, R$ 60), que reúne os artigos publicados no Caderno 2 durante a estada de um ano no Japão, de março de 2011 a março do ano passado. Incansável, Giannotti promove ainda, entre os dias 4 e 6 de março, um seminário internacional sobre a cor no Centro Universitário Maria Antonia. O evento terá a participação, entre outros, do diretor da editora Phaidon Press, David Anfam, responsável pelo catálogo raisonée do pintor Mark Rothko (1903-1970). Outros participantes do seminário são o professor japonês Toshya Echizen, pesquisador da Universidade Doshischa de Kyoto, e o curador do Museu Kawamura em Chiba, Takashi Suzuki, que vai falar sobre o sistema cromático xintoísta.

O primeiro impacto da temporada japonesa de Giannotti veio por meio da constatação de que o exercício morfológico do olhar no Ocidente tende a levar o observador ao território da abstração, quando, no Japão, o papel das sombras como formadoras da luz e a oscilação dos movimentos da natureza conduzem o pintor a uma relação mais "real" com a cor. "O que consideramos o Matisse puro nasce, enfim, de uma aproximação com essas referências orientais", observa Giannotti, definindo as 14 pinturas que integram a exposição Penumbra como frutos da "junção entre motivos orgânicos e alegóricos". Numa das páginas de seu Diário de Kyoto, ele explica como a passagem das estações, que no Japão é bem nítida, o levou a refletir sobre as relações cromáticas como frutos do movimento instável da natureza, reflexão essa que resultou, primeiro, em colagens com papel japonês e, depois, nas pinturas da exposição.

As colagens remetem automaticamente ao começo de carreira de Marco Giannotti, em 1988, quando, já doutor em artes plásticas pela USP, fez sua primeira exposição na galeria do marchand Paulo Figueiredo, morto em 2006, que promoveu a carreira de artistas como Mira Schendel (1919-1988), Paulo Pasta e Nuno Ramos. Mira teve grande influência sobre Giannotti nesse período. O uso de papel japonês nas colagens que ele vai mostrar no Instituto Tomie Ohtake é um exemplo. A viagem ao Japão apenas reforçou o desejo de trabalhar mais a questão cromática através da transparência do papel de arroz, usado por Mira e Antonio Dias, outra referência do artista.

Nas novas pinturas, Giannotti distancia-se da abstração de Rothko, que sempre admirou, para registrar a memória dos dias passados no Japão. Há na tela azul traços reconhecíveis das folhas vermelhas dos plátanos que encantam os turistas do Parque Imperial de Kyoto no outono. Essas folhas, no entanto, são apenas sombras sugeridas em spray preto numa pintura que usa ainda óleo e a antiga têmpera, unindo três técnicas de diferentes épocas - ousadia permitida pela experiência desse professor de pintura da USP.

Giannotti cita, a propósito, a série Shadows, pintada nos anos 1970 pelo artista pop Andy Warhol como homenagem ao pintor metafísico italiano Giorgio De Chirico. Incursão do artista em território abstrato, Shadows transfere para a tela a sombra de uma imagem que, paradoxalmente, não pode ser representada. As folhas de plátano em spray da pintura azul de Giannotti são quase evocações platônicas de uma Kyoto que Giannotti conheceu, mas que, de algum modo, é irrepresentável. Aí entra a literatura de Tanizaki, um esteta que, ao escrever o ensaio Em Louvor das Sombras, em 1933, sai em busca do modo singular de encarar a beleza que têm os orientais. Essa estética nipônica, que privilegia a limpeza formal, revela sua inclinação para eleger a penumbra como sinônimo do belo - daí o título da exposição, referência ao escritor.

"Foi bom parar de ler um pouco críticos como Clement Greenberg para ler Tanizaki", brinca Giannotti, que não saiu com boa impressão da arte contemporânea que se faz no Japão: "De modo geral, ela é um tanto paródica", observa. Com justa razão.

PENUMBRA

Galeria Raquel Arnaud - Rua Fidalga, 125; abertura sábado (02 de fevereiro)

DIÁRIO DE KYOTO

Instituto Tomie Ohtake - Rua dos Coropés, 88; abertura no dia 21 de fevereiro

SEMINÁRIO SOBRE A COR

C.U.Maria Antonia. De 4 a 6 de março

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