Luz na escuridão do Ultra

New Order traz dinâmica a noite de beats monótonos

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2011 | 03h07

A concentração de batidas inimaginativas que desfilou pelo Sambódromo do Anhembi, neste sábado à noite, foi interrompida brevemente, por cerca de uma hora, quando os veteranos do New Order subiram ao palco para nos lembrar de que criatividade e dance music comercial já caminharam lado a lado. "Nós trouxemos até o clima de Manchester conosco", brincou o vocalista Bernard Sumner, referindo-se à garoa que começava a cair no Ultra Music Festival. E como se fosse o sol cortando pelo acinzentado firmamento inglês, a guitarra de Sumner deu uma dinâmica criativa em gritante falta durante o resto do festival.

Na set list, canções imprescindíveis para qualquer festa de nostalgia oitentista: Bizzarre Love Triangle, Blue Monday, Temptation, marcos que sempre agradam aos saudosistas, mas também ecoam com uma estética que parece nunca sair de moda, mesmo trinta anos depois da formação da banda. Nada seria do xx, por exemplo, não fosse o baixo marcado e o contraponto econômico das guitarras que o New Order já destilava desde os tempos do Joy Division. The Killers, Gwen Stefani, Scissor Sister todos soariam diferente sem a adaptação de elementos do eletrônico (das galopantes linhas de baixo de Giorgio Moroder, às características palmas sintéticas do house de Chicago) feita com tanta astúcia pelo New Order.

O show durou pouco. De acordo com o site Setlist.fm, em que fãs publicam o repertório de cada show de suas bandas prediletas, a apresentação do New Order em Buenos Aires, na quinta-feira, foi bem mais completa, com direito a Love Will Tear Us Apart, hino do Joy Division, no final. Mas pouco poderia se esperar de um festival/balada marcado por DJ sets que visaram pouco mais do que entreter com um soca soca monótono e previsível. Neste contexto, um show curto e bem feito de uma banda histórica parecia um milagre. Até os erros (um vocal de Sumner que desafina vez ou outra, um Stephen Morris na bateria sem a precisão de antigamente) eram perdoáveis pela boa intenção do New Order.

A banda estava parada e voltou a excursionar em 2011, cinco anos depois de Sumner e Peter Hook, baixista desde a formação do Joy Division, terem brigado. "Vocês não são mais New Order do que eu", escreveu Hook, em seu MySpace, na época. "Vocês podem ser dois terços da banda", disse, referindo-se a Summer e Morris, "mas não pensem que vocês tem o direito de fazer qualquer coisa que tem a ver com o New Order... Vejo vocês no tribunal", completou o baixista, que também chamou Sumner de otário em uma entrevista ao jornal Guardian este ano. Enquanto Sumner faz turnês com o New Order, Hook faz shows completos dos dois discos do Joy Division com sua banda The Light. A rixa entre a banda e Hook vem desde quando o baixista comprou os direitos da histórica boate Hacienda, antro do pós punk que se tornou uma das boates mais famosas do mundo, no final dos anos 80, com a ascensão do acid house. Na última turnê da banda, curiosamente pelo Brasil, em 2006, houve um incidente sobre o qual Hook "prefere não falar."

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