Luz de Vermeer e Reverón

Holandês e venezuelano se encontram na encruzilhada do ver e do não ver

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2012 | 02h07

Aparentemente não há traços em comum entre a pintura do holandês Vermeer e do venezuelano Armando Reverón, homenageados com duas mostras, o primeiro com uma única obra-prima - Mulher de Azul Lendo Uma Carta -, hoje, no Masp, e o último com uma completa exposição aberta no sábado, Relâmpago Capturado, no Museu Nacional da República em Brasília, que reúne 174 obras, entre pinturas, desenhos, fotografias e esculturas. O que aproxima Vermeer (1631-1675), pintor do século 17, de Reverón (1889- 1954), homem do século 20, é não só a obsessão pela captura da luz como pela cor azul. A tela de Vermeer é dominada pela imposição cromática da roupa azul da figura feminina, que irradia e se espalha pelo quadro graças à luz difusa proveniente de uma janela, não vista na pequena pintura. A primeira fase de Reverón ao voltar da Europa, deslumbrado pela pintura dos mestres, é justamente caracterizada pela cor azul, quando a paleta do venezuelano ainda guarda a memória da ordem cromática noturna ditada pela lembrança das telas de Goya e do confronto dos impressionistas com a instabilidade da luz.

Como um Vermeer às avessas, Reverón acabou renunciando a essa influência europeia antes mesmo de ter enlouquecido, especialmente por concluir que um pintor nascido nos trópicos não pode almejar o contraste presente em pinturas como as dos holandeses, pois esse contraste nas telas dos flamengos só é possível com a luz baixa europeia, onde, em dias especiais, até se pode encarar o sol. No Caribe, onde viveu Reverón, essa luz cega. O contraste desaparece - e só com dificuldade é possível identificar uma ou outra figura, diluída na luminosidade tropical.

É o que acontece nas pinturas da fase branca de Reverón, realizadas entre 1924 e 1932, algumas exibidas na mostra do Museu Nacional de República, que tem como curador o diretor da instituição, Wagner Barja. A ação da luz tropical sobre as formas, seu impacto sobre elas, levou Reverón a rever o que aprendeu na Europa, fazendo com que ele, admirador do impressionismo, radicalizasse a proposta do movimento francês, evoluindo para a abstração. Tanto nas paisagens brancas como em seus nus (que remetem ao universo das mayas desnudas goyescas), o que se vê é uma imagem residual das formas diluídas pela ação do sol nos trópicos.

Em contrapartida, o que se vê nas telas de Vermeer é o todo absoluto, cada detalhe da cena retratada, como em Mulher de Azul Lendo Uma Carta, tela pintada entre 1662 e 1665 e na coleção do Rijksmuseum de Amsterdã desde 1885, que passou recentemente por restauro. Pequena obra-prima de 46,5 cm por 39 cm, o óleo mostra uma mulher aparentemente grávida, lendo uma carta ao lado de um mapa da Holanda. O corte da tela é teatral: entre duas cadeiras e uma mesa, não se vê nessa cena interior o teto ou a quina da parede. A fonte de luz é proveniente da esquerda do quadro, de uma janela oculta. Pelo mapa na parede, é possível que a carta que a mulher lê seja a de um marido viajante, mas uma caixinha sobre a mesa denuncia o contrário. O restauro da pintura revelou mais pérolas no colar retirado da caixa do que seria desejável para garantir a virtude da figura feminina como esposa - simbolicamente, as pérolas sugerem traição e são associadas à superficialidade.

O curador do Masp, Teixeira Coelho, lembra que eram incomuns as pinturas de mulheres grávidas na época de Vermeer. Pode ser que ele fosse audacioso, mas, ao contrário de Reverón, essa não era uma de suas características mais fortes. A moda do século 17 particularmente desfavorável à silhueta feminina, como atesta o casaco azul da personagem nessa ficção que anima o curador, estudioso da narrativa pictórica. Mulher de Azul Lendo Uma Carta é uma das 36 telas reconhecidas no mundo como de autoria de Vermeer (a 36.ª, O Concerto, pintada em 1664, foi roubada em 1990 do museu Isabella Stewart Gardner Museum, de Boston, em 1990, e está desaparecida). A pintura em exposição no Masp reforça a fixação de Vermeer pelo tema - o das mulheres retratadas diante de uma janela.

Diferente de Vermeer, que só admitia do exterior a luz - para iluminar interiores sombrios -, Reverón resolveu assumir suas paisagens monocromáticas feitas sob a escancarada luz tropical de uma praia, quando se mudou de Caracas para Macuto em 1921, onde construiu o hoje desaparecido Castillete, sua morada até o fim da vida. Tendo como única modelo viva sua mulher Juanita, ele buscou variações em bonecas de pano de tamanho natural que lhe serviram de "majas desnudas", companheiras das bonecas pequenas com que brincava na adolescência, quando uma febre tifoide afetou sua já precária saúde.

Esquizofrênico, como o brasileiro Bispo do Rosário, Reverón foi uma espécie de Robinson Crusoé das artes, um náufrago que abjurou a pintura europeia para refundar a técnica em seu monocromatismo tropical - primeiro branco, depois sépia. Além dela, fez escultura com objetos toscos, bonecas de pano forradas de jornal, precários instrumentos musicais de madeira (sem finalidade utilitária) e roupas feitas de material orgânico, todos expostos agora no Museu Nacional.

Seu diretor, Wagner Barja, conseguiu para a mostra um documentário raríssimo, Reverón, realizado em 1951 pela cineasta venezuelana Margot Benacerraf, que mostra o cotidiano do pintor na isolada praia de Macuto, inclusive cenas com o seu macaco de estimação, que ele ensinou a pintar - há uma tela de autoria do animal na mostra. Reverón, dois anos antes da crise psicótica que o levaria à internação dois anos depois, posa para a cineasta na exata posição em que Vermeer se autorretratou em A Alegoria da Pintura (1666-7). Impressionante.

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