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Luz, câmera, ação, e o brega vira cult

Moacyr Franco, que se via no 'quase ostracismo', fez dois filmes após 'O Palhaço' - amanhã, estreia 'Vitrola', na Cultura

Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2013 | 02h04

Perto de completar 77 anos, com algumas décadas de rádio e TV, mais de 32 discos e dezenas de hits compostos para outros intérpretes, Moacyr Franco virou figura requisitada em sets de filmagens e séries de TV paga. Foi Selton Mello, ao convidá-lo para o filme O Palhaço, quem promoveu sua descoberta por esse universo quase adverso ao do banco da Praça É Nossa, orgulhosamente frequentado por ele no SBT. Na madrugada deste sábado para domingo, à 0h15, ele aparece em seu segundo filme - Vitrola, produção da Pródigo para a TV Cultura. Também finaliza as filmagens de Aprendiz de Samurai, da O2 Filmes.

A essência do ganha pão, no entanto, continua vindo dos shows, e são pelo menos três por semana. Moacyr grava ainda Agora, Sim, seriado produzido pela Mixer para o canal Sony. E, em visita à sede do Estadão, avisa aos produtores carentes de roteiristas para a TV: "Quero muito escrever. Tenho ideias para grandes roteiros".

Amanhã veremos você, veterano em televisão e novato em cinema, em seu segundo filme. Como é sua participação no Vitrola?

Ele é um animador de televisão, tipo Gugu, Silvio Santos, meio canastrão, e favorece uns, prejudica outros. É sobre um cara que tem um sebo, tem uma relação com o urbanismo.

Você ganha dinheiro com TV?

Que isso? Ganho o mesmo salário há 15 anos. O que me sustenta são os meus shows. Sabe o que é, bem? Quem ganha dinheiro na televisão são esses apresentadores desses programas dominicais. No SBT, quem ganha menos ganha 1,5 milhão. Agora, o resto? Comediante, esse povo, não.

Silvio Santos não lhe encomenda mais novos projetos, como foi com o seriado Meu Cunhado?

Há uns dois meses, fui na sala dele e conversamos sobre isso. Ele veio com aquela história da carochinha, que ele não manda nada... Fiz duas propostas. Uma é um seriado muito interessante, sobre o Chaves, um achado que veio na minha cabeça, uma coisa completamente nova. Outra é um programa chamado Hebe by Moacyr Franco: é o programa da Hebe, conduzido por mim, que sempre foi o sonho dela que a gente trabalhasse junto, e ela sempre falou para o Silvio que eu deveria ter um programa. Eu queria usar a logo dela, o cenário dela, o sofá, aquela elegância, e fazer um baita programa musical, de muito humor, entrando e saindo comediantes, semanal. Aí, ele ficou com olho arregalado: 'é uma bela ideia'. Mas não passa disso, é um que manda falar com o outro... O SBT é extraordinariamente complexo, a gente tem que jogar o jogo deles.

Agora está filmando Aprendiz de Samurai. Não é uma convivência com uma tribo completamente diferente do universo SBT?

É, tem uma meninada, tudo de 22, 25 anos, na parte técnica. E eles têm a humildade de me perguntar o que eu acho. Aí eu acho muito (risos). Outro dia, um menino me perguntou o que eu achava e falei: 'Não dá, vamos fazer de novo, por isso, por isso e por isso'. Vai ficar bonito. Tem Caio Castro, Sabrina Sato, Tato Gabus Mendes, Domingos Montagner, o filme é pungente, uma história bonita.

Você me disse que estava se sentindo quase no ostracismo. Como foi essa redescoberta?

Sabe o que é? Eu sou uma coisa híbrida diferente no Brasil. Comecei junto com o pessoal da Bossa Nova e não fui Bossa Nova. Comecei nos musicais de teatro e não fiquei nos musicais de teatro. Estourei na época da Jovem Guarda e estava do outro lado. Foi todo mundo para a TV Excelsior, aquela debandada célebre para o Rio de Janeiro, e eu vim para São Paulo. Então, a minha carreira inteira eu fui sozinho. Sou o único artista que cantou com uma orquestra no palco, por 30 anos, com todos os maestros maravilhosos do Brasil. Mas... Eu não me encaixo na MPB, não me encaixo no brega, eu não sou nada! Uma repórter em Natal me perguntou: 'você se considera brega?' Eu disse: '20% de mim é brega, o resto não vale nada'. Porque brega é lindo! Brega é o que o Brasil é. Brega é um estado de espírito. Agora, estou com uma música com o Sérgio Reis que vem tocando muito, nós dois cantando, os dois velhinhos.

'Velhinho'? É assim que se vê?

Vou fazer 77. Tenho consciência de que estou vivendo os últimos 6 ou 7% da minha vida. Quero fazer muito, porque como perdi tudo a vida inteira... Quando tive um aneurisma. Deus falou: (emposta a voz) 'Não, não, não, você ainda tem muito a perder!' Perco casa, mulher, automóvel, tudo. Por outro lado, sempre encontro dentro de mim uma outra força pra começar. Só quero ter saúde.

É obsessivo com os cuidados?

Hoje, já fiz peso, já fiz ginástica, já corri. Tenho uma mala só de vitaminas que carrego há 40 anos. Agora descobri o sol: não fico sem tomar sol de manhã. Só se pode tomar sol até o momento em que a sombra está do seu tamanho. Falei isso pro Silvio Santos e ele falou: (imita a voz do patrão): 'eu tô tomando sol nos joelhos'. 'Nos joelhos?', perguntei. E ele: 'é, tô com um probleminha de articulação, então ponho uma toalha aqui e tomo sol nos joelhos'. 'Que preguiça!', eu disse.

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