LUXO BRUTO EM ÁREAS DE RISCO

Em Fashionistas, a fotógrafa Sarah Caron revela o belo em regiões marcadas por miséria e medo

CYNTHIA GARCIA, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2013 | 04h26

No último dia 5, Sarah Caron, vencedora do prêmio Canon-AFJ de fotojornalista mulher em 2012, inaugurou a mostra Fashionistas na galeria do Hôtel Lutetia, em Paris, com 17 imagens de ensaios na Birmânia, em Cuba e no Paquistão, em Paris. O fascínio em torno da profissional é tanto que foi objeto do vídeo Les Yeux de Sarah de 100 minutos, dirigido por Patrick Chauvel, em 2007, que a seguiu por vários continentes atrás das motivações que levam essa mulher a enfrentar situações onde o belo e o horror se cruzam.

Sarah é bonita, tem 42 anos, dos quais 16 fincados no fotojornalismo. Francesa de boa família de Aix-en-Provence, a moça que se dedicou ao balé clássico antes da fotografia virou uma espécie de heroína, carrega sua câmera para os lugares mais hostis do planeta para registrar conflitos, injustiças e o dia a dia marcado pelo sofrimento, onde seu olhar consegue descobrir até a beleza desse "mundo frágil", título de outra mostra de sua autoria. Na mostra atual, uma das séries é Paloma, Rainha dos Travestis, uma espécie de noite dos desesperados, decadente, captada em Havana, em 2009.

A primeira viagem a Cuba, em 1994, foi a encomenda que a jogou no fotojornalismo, Sarah tinha 24 anos. Seu job, registrar a crise dos "balseros", a fuga em massa dos cubanos para os EUA em embarcações caseiras, com vela içada feita até de calça jeans. "Foi um período duro, os soviéticos cortaram a ajuda financeira a Cuba e Fidel pediu ao povo que apertasse mais o cinto", lembra-se a ex-estudante de letras, com tese em literatura latino-americana, que expôs numa coletânea na Foto Rio 2009, sem sua presença.

Fashionistas é outra faceta de sua câmera digital que já registrou o batalhão nepalês dos Gurkha na fronteira com o Afeganistão, a guerra fratricida dos talebans na região de Waziristan, mulheres vítimas de ataques de ácido e a primeira ministra, Benazir Bhutto, em sua residência, em Lahore, para o semanário americano Time, três semanas antes de ser assassinada em um golpe militar em Rawalpindi, no Paquistão, em 2007.

Sarah já esteve nesse país várias vezes, é apaixonada pela riqueza cultural ignorada pela nossa mídia. Ser ocidental e mulher em uma área dessas é um perigo, mas também abre portas. "Tenho um glossário antropológico dentro de mim", confessa.

Diferente dos fotógrafos, que terminado o trabalho partem para outro, ela permanece no lugar, vivendo na tribo, vestida de burka, exposta aos mesmos dramas que as mulheres captadas por suas lentes. "Com a câmera digital, o fotojornalismo mudou comparado há dez anos. As agências Reuters, AP e outras possuem ótimos profissionais locais que captam tudo assim que ocorre. Para o freelancer como eu, a concorrência atrás de uma matéria quente é brutal. Prefiro ficar mais tempo no lugar, como fiz, em 2006, em Israel e na Palestina, assim consigo colaborar com várias revistas, registrando para cada uma um assunto diferente", explica a profissional que ocupa seu apartamento, em Paris, quatro meses ao ano.

"Curto elaborar o assunto, me aprofundar. Não faço reportagens quentes, gosto de descobrir um viés artístico, emocional, que traga maior compreensão da situação", afirma, como fez nas reportagens premiadas, White Widows, sobre a triste condição das viúvas na sociedade indiana, e Ladyboys, sobre a prostituição de rapazes adolescentes transformados em travestis, no Camboja.

Na mostra, Sarah revela um viés desprezado pela mídia ocidental, a moda nesses países em área de risco. Na Birmânia, em 2011, ela registrou Hip Hop Fans, publicada na NY Times Magazine, sob o título Os Filhos da Junta. O ensaio apresenta um grupo de jovens estilosos como qualquer adolescente. No entanto, em meio ao estado marcial daquela sociedade, esses moderninhos fanáticos pela cultura ocidental são óvnis deslocados que chegam a se matar por um modelito fashion na luta para não serem roubados de sua juventude, sua opção sexual, seus desejos.

Nas imagens feitas no Paquistão, de 2010 a 2012, no lugar de talebans enrolados em mantos sujos empunhando rifles, ela desvenda um mundo de puro luxo, longe do clichê da miséria e do medo. O Ocidente se esquece: por ali passou a Rota da Seda com suas caravanas de riquezas comercializadas por toda Ásia e Europa, desde Alexandre, o Grande.

Essa tradição é perpetuada por um grupo de jovens paquistaneses - lindos - da cidade murada de Lahore, que cultivam o traje tradicional à maneira das mil e uma noites com bordados, pedrarias e sedas tingidas com corantes naturais, como açafrão, anil e cochinilha, perfumados por especiarias para espantar os maus espíritos. Superficial? Não sob o olhar de Sarah Caron, verdadeira heroína dos nossos tempos, que já provou ser uma fera, para só agora revelar a vaidade, intrínseca ao ser humano em todas as sociedades, até mesmo nas de risco.

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