Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Luto e melancolia

Flávio Izhaki dá voz a uma família que lida com suas angústias, perdas e despedidas

MARIA FERNANDA RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2013 | 02h15

Patrick pouco conviveu com o bisavô Natan, mas aos 13 anos foi o escolhido para ir ao lado de seu caixão na Kombi que os levaria ao cemitério. O motorista pergunta sobre tradições e costumes de seu povo, e o garoto não sabe responder. Esta foi a cena escolhida por Flávio Izhaki para abrir o romance Amanhã Não Tem Ninguém, narrado em primeira pessoa pelo garoto, pela mãe dele, o pai, o tio, a avó e o bisavô.

Breve romance sobre o fim - da vida, das relações -, o livro traz recortes de períodos específicos dessa família de origem judaica. "É interessante pensar se certos momentos-chave das pessoas podem explicar toda uma vida", comenta o autor. Alguns dos personagens narram os fatos quando eles estão acontecendo, outros voltam anos na história e recorrem a uma memória titubeante.

Marlene, avó de Patrick, mãe de Nicolas e de Marquinhos e filha de Natan, foi quem primeiro apareceu para o autor. De início, ela era uma mulher que acompanhava, à beira da cama, a morte do pai. Não era triste por causa da perda iminente, mas porque, quando ele finalmente morresse, ela teria de retomar uma vida que nunca teve. Depois Izhaki criou um homem que herdou do pai o ofício de consertar relógios e se lembra, a distância, da relação com a mulher já morta, uma judia que no fim da vida se converteu ao catolicismo. Foi natural que ele virasse pai de Marlene, adotada depois de sucessivos abortos.

O terceiro personagem foi Nicolas, o filho mais velho de Marlene, que sonhava em ser cardiologista até o pai morrer de enfarte. Mas não foi ele quem presenciou o ataque fulminante, foi Marquinhos, o caçula, que depois testemunharia o suicídio, no metrô, de um rapaz que minutos antes havia desejado e que, aos 17, sairia de casa para integrar o exército israelense.

Essas e outras histórias são contadas por seus protagonistas e, às vezes, por outro membro da família também. O desencontro de informações e sentimentos é prova de uma comunicação precária entre os familiares.

Há semelhança entre algumas das vozes, e isso foi proposital. "Com variações, é uma família que se repete, se repele e se estranha", diz o autor. E completa: "Tentei fazer sempre cenas de personagens diferentes, mas parecidos. São repetições com o objetivo de repetição mesmo, de amalgamar a família como se aquilo fosse uma repetição alterada." Como ocorre nas melhores famílias. Nesse processo, o leitor acompanha como a história é narrada, recebida e lembrada, e como essa lembrança afeta o entendimento de mundo da pessoa.

Mônica, a mãe de Patrick que nunca foi aceita pela sogra porque não era judia, carrega com ela uma preocupação de seu criador acerca desse entendimento. "Ela tenta pensar se as escolhas podem ser julgadas depois que tudo aconteceu. Se é possível avaliar as decisões tomadas e a própria vida sabendo que resultado sairia daquilo."

E pensar é a palavra certa, porque há muito mais pensamento do que ação na obra. "Ao narrar em primeira pessoa, quis analisar em que medida as coisas pensadas são colocadas em ação. Não sou muito afeito a diálogos, e sempre me interessou mais o que as pessoas pensam e o que, de fato, decorre disso."

No caso dos personagens do livro, quase nada. Há pouca tentativa de se chegar ao outro e eles estão sempre rompendo com alguma coisa, desistindo de si e daquela família. Nesse sentido, Patrick acaba sendo uma consequência dessa ação, ou da falta de ação, de seus pais, tios e avós. Curioso é que dos narradores, todos solitários, ele é o único que usa a palavra solidão, e lamenta que se sinta assim. Mas isso ele não verbaliza.

É então Patrick, o garoto que vive fechado na sua rotina de abrir o e-mail e não encontrar nada, de sair para o recreio e não encontrar ninguém e de não conseguir passar a última fase do videogame, quem inicia e encerra a história. Pelo que o autor já andou ouvindo, há quem encontre no diálogo final, dele com a avó no cemitério, que remete ao jogo pelo qual é fissurado, uma ponta de esperança e a ideia de que a vida segue adiante.

"Não pensei nisso e essa é a beleza de o livro ganhar o mundo: o leitor pode dar o seu sentido", diz Izhaki. "Ele é todo muito carregado, tem a história da limitação física, do fim meio inexorável, e tenho uma leitura de que o mundo continua e que a vida começa e termina milhões de vezes. Agora, esperança é uma palavra forte. É um recomeço, vamos dizer assim, coloca o escritor, pai de Anita, 1 ano e 9 meses." Um recomeço solitário, sem redenção ou transformação. E aí residem a leveza, a delicadeza - e a tristeza - de Amanhã Não Tem Ninguém.

AMANHÃ NÃO TEM

NINGUÉM

Autor: Flávio Izhaki

Editora: Rocco

(200 págs.,

R$ 28)

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