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Luto derramado

Atual presidente recebeu recado expresso para não aparecer no funeral de McCain

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2018 | 02h00

A agonia de John McCain, morto no sábado à noite, durou 13 meses. Ele foi diagnosticado com um agressivo tumor no cérebro e sabia, desde julho de 2017, que tinha pouco tempo. Mas o luto apartidário que tomou conta do país transcende o homem que se descrevia como cheio de falhas. Ao longo do ano em que encarou o fim com dignidade e bom humor, o senador do Arizona fez os americanos lembrarem de um país onde a maioria acreditava viver e hoje não reconhece.

É o país onde McCain pediu a dois ex-inimigos políticos, Barack Obama e George W. Bush, para fazer elegias no seu funeral, não o país onde o atual presidente recebeu recado expresso para não aparecer na cerimônia. É o país onde McCain, filho de almirante, recusou a oferta de liberdade de seus carcereiros norte-vietnamitas porque não incluía a liberdade de companheiros presos e enfrentou mais anos de tortura, não o país onde o atual presidente teve cinco deferimentos para se livrar do serviço militar e descreveu ter escapado de doenças sexuais no desvario dos anos 1980 como “o meu Vietnã.”

Na campanha presidencial de 2000, o pré-candidato McCain já tinha vencido uma importante primária e rumava para uma vitória na Carolina do Sul que, analistas estimavam, tiraria o despreparado George W. Bush do páreo. O marqueteiro de Bush, Karl Rove, um João Santana da direita, inundou o Estado com uma falsa pesquisa de opinião. Eleitores ouviram a pergunta, você votaria em McCain se soubesse que ele tem uma filha ilegítima? O senador perdeu a primária. A suposta menina era a legítima filha adotada que a mulher de McCain trouxera doente de um orfanato da Madre Teresa de Calcutá, em Bangladesh. Sua ilegitimidade implicada na “pesquisa”? Ser negra. Bridget McCain tinha apenas 9 anos quando foi usada por Rove, que nunca se desculpou e até hoje é recompensado pelo seu meretrício. Depois da derrota, McCain lembrou como tentou proteger a filha caçula dos ataques racistas que recebeu.

O país que a maioria dos americanos gostaria de ter de volta está sendo desfigurado por gente como a principal candidata republicana à outra vaga no Senado pelo Arizona. O nome dela é Kelly Ward e, quando a família McCain anunciou, na sexta-feira, que o senador havia interrompido a medicação porque estava à morte, escreveu no Facebook que o anúncio era destinado a atrapalhar sua campanha.

No seu ano final, McCain admitiu dois erros pelos quais o país continua a pagar caro. O primeiro foi o apoio à invasão do Iraque. O segundo foi a escolha da desqualificada e extremista Sarah Palin para vice na campanha presidencial contra Barack Obama em 2008. É difícil imaginar a vitória do atual presidente sem a palinização que contaminou o Partido Republicano na última década. O desprezo pela ciência, a celebração da vulgaridade, a xenofobia, o racismo, o leilão da política pública para o lance mais alto, tudo isso facilitou a ascensão do ex-colega de João Dória na carreira em reality show.

Entre os inúmeros insultos que o atual presidente americano proferiu, na campanha de 2015/16, foi dizer que John McCain não era um herói de guerra porque se deixou capturar. Seu avião foi abatido pela artilharia norte vietnamita em outubro de 1967, quando começou a via-crúcis como prisioneiro. Logo depois da declaração sobre McCain, o editor de uma revista conservadora perguntou ao candidato se gostaria de pedir desculpas ao senador. “De jeito nenhum,” foi a resposta. O jornalista perguntou se ele sabia dos horrores que McCain enfrentara na prisão. “É irrelevante,” disse o futuro presidente.

O imperfeito e volátil John McCain escreveu, numa de suas memórias, “Na prisão, eu me apaixonei pelo meu país”. A onda de luto pela sua partida sugere que muitos americanos querem voltar para casa.

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