Luta sem trégua para salvar um filho

O surpreendente A Guerra Está Declarada baseia-se na experiência pessoal do casal de intérpretes

O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2012 | 03h07

O que é a doença de um filho? Uma guerra, na qual se combate para matar ou morrer. Na qual tudo vale, da força bruta à astúcia, dos melhores sentimentos aos mais baixos. Interessa viver. E vencer. É do que trata A Guerra Está Declarada, de Valérie Donzelli, com roteiro de Jérémie Elkaïm. Na vida real, Valérie e Jérémie foram casados e o caso aconteceu com eles. O filho adoeceu gravemente. Valérie e Jérémie também são os atores do filme.

Eles vivem Romeo e Juliette, jovens que se conhecem numa balada, logo se casam e têm um filho, Adam, que, ainda bebê, começa a apresentar sintomas inquietantes. Em seguida, vem o diagnóstico e o calvário por médicos, hospitais, cirurgias, ressonâncias magnéticas, quimioterapias, a parafernália toda. Uma luta. Uma batalha. A guerra que, como todas, produz vítimas, mutilados e traumatizados.

Nada mais previsível do que uma dessas famosas batalhas contra o câncer? Nada disso. Pode-se gostar ou não de A Guerra Está Declarada. Mas não se pode dizer que caia na mesmice. Afinal, que outro filme teria uma pegada pop, rock, para tratar um tema desses? Pois é o que acontece. Valérie nega-se a trabalhar com apenas um registro. Cenas realistas mesclam-se com outras delirantes e até operísticas. É assim quando a mãe recebe em Marselha o diagnóstico da doença do filho e tem de transmiti-la ao marido, que está em Paris e este precisa avisar a família toda do que está acontecendo. Sentimo-nos, nessa sequência, como se assistíssemos a uma ópera encenada em um grande teatro. Valérie não tem medo de exagerar.

Nem tem receio de brincar com o tema-tabu, a saúde do filho. Há um diálogo entre ela e o marido, na cama, na véspera da cirurgia, em que ficam imaginando as possíveis sequelas da criança, até levá-las ao paroxismo: pode ficar cego, surdo, mudo, politicamente de direita, etc. Quem tem medo do humor? Não Valérie ou Jérémie que, com autoridade, viveram nas próprias peles o trauma e sabem que um pouco de alegria, e mesmo de humor negro, pode desanuviar tensões, beneficiar a energia do organismo e, dessa forma, prepará-los melhor... para a guerra.

No enfrentamento com o corpo médico durante uma doença grave às vezes temos a experiência direta do universo kafkiano. Há muito disso no filme. Ao mesmo tempo, vê-se a gratidão pela maneira como foram atendidos. Valérie disse que vive em um país no qual os procedimentos médicos, por sofisticados e caros que sejam, estão ao dispor de toda a população - e de forma gratuita. "Se fizerem um remake nos EUA, será a história de um casal que passa o tempo todo tentando reunir dinheiro para tratar do filho", diz ela, brincando e também muito a sério.

Este é um daqueles filmes que nos espantam enquanto os vemos e depois permanecem na memória, sem querer sair. Nos toca e fica conosco.

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

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