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Luta mortal entre mestre e discípulo

'Tese Sobre Um Homicídio' traz Ricardo Darín no papel do professor de Direito que tenta resolver um assassinato

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2013 | 02h17

Em Tese Sobre Um Homicídio o que se põe logo em jogo é a velha relação de admiração/rivalidade entre mestre e discípulo. O filme, dirigido por Hernán Goldfrid, baseia-se na atração desse tema universal e, de maneira ainda mais direta, no carisma de Ricardo Darín, "o" ator argentino contemporâneo.

Ele mesmo é o mestre, o professor de Direito Criminal Roberto Bermudez, que leciona um curso bastante admirado na Faculdade de Direito de Buenos Aires. O aluno é Gonzalo (Alberto Ammann), filho de um colega de Bermudez, e que se revela discípulo particularmente brilhante. A ponto de apresentar uma tese original nada menos que sobre um crime cometido numa cafeteria em frente à própria faculdade. Esse é o plot inicial, e nem convém adiantar-se muito sobre ele, basta comentar que o caso dá início a uma relação mais próxima - e portanto mais áspera e intrincada - entre professor e aluno.

Esse é um daqueles exemplares argentinos que marcam a diferença significativa em relação ao cinema brasileiro. Não se trata de juízo de valor, apenas constatação de que, mesmo num (bom) produto comercial como esse, veem-se presentes elementos dificilmente encontráveis em similares nacionais. Em especial um certo substrato, digamos, "intelectual", sob a forma da discussão de temas como livre-arbítrio e culpabilidade. Assuntos da filosofia jurídica, que passam sem sustos para um público-alvo suposto educado e que, aqui, são evitados como peste. No Brasil, tudo que seja referência livresca é tido como veneno de bilheteria, o que não acontece no país vizinho, no qual o índice de leitura, como se sabe, é bem superior ao nosso. Basta uma visita a Buenos Aires para constatar como, apesar das crises seguidas, a cidade tem tantas livrarias como São Paulo tem farmácias. Ou bares.

Esse é um dado. O outro, que pode também ser um calcanhar de aquiles das próprias qualidades, é a atenção ao aspecto, digamos, "literário" do fazer cinematográfico. Ou seja, ao roteiro, ao texto que deve se sustentar no plano do verossímil para que o filme que bate na tela se mantenha de pé. No caso de Tese Sobre Um Homicídio, seu roteiro parece um tanto superconstruído, o que produz dois efeitos nem tanto coincidentes: a história parece tão solidamente verdadeira que às vezes soa artificial. A vida, se sabe, não é tão certinha assim. Pelo contrário, mostra-se cheia de incoerências. Num dos romances de James Cain, O Destino Bate à Porta, um advogado ouve a versão meio delirante do seu cliente e comenta algo assim: Bem, o júri pode acreditar nisso, porque esse é o tipo de construção destrambelhada que a verdade costuma ter.

Certinho demais, Tese Sobre Um Homicídio revela a tendência um tanto cartesiana do cinema argentino, pelo menos aquele de comunicação mais fácil com o seu público. Diferentes, por exemplo, costumam ser os trabalhos de Lisandro Alonso, Lucrécia Martel ou Pablo Trapero, suas vertentes mais autorais. São artistas mais próximos do inconsciente, de certo desacerto e transbordamento da forma mais racional do mainstream comercial argentino.

Dito isso, deve-se reconhecer que Tese Sobre Um Homicídio funciona muito bem em sua proposta de thriller psicológico. Serve-se de uma trama inteligente e, claro, da entrega de Darín que, apesar de trabalhar mais que remador de Ben-Hur, parece nunca ligar o piloto automático. Está sempre de corpo presente na ação e consegue lhe dar seu toque pessoal. No caso de Tese, seus melhores momentos aparecem quando a situação de disputa o leva ao eclipse mental. Essa postura faz o filme subir de patamar e ser, também, comentário sobre a guerra de gerações e suas consequências. Bermudez ocupa o ápice da carreira. Gonzalo ainda não é ninguém, e aspira a chegar lá. Talvez substituir o mestre na veneração que lhe devotam alunos (e alunas).

No fundo da admiração mora, num quarto escuro, o sentimento de rivalidade, o que nem sempre se reconhece com facilidade. Mas a inflexão da história revela que Hernán Goldfrid parece consciente desse fato da vida intersubjetiva dos personagens. A relação entre aluno e professor será, então, a de egos em disputa por espaço, como é de hábito entre pessoas brilhantes de gerações diferentes e que, por acaso, se encontram no exercício de uma mesma profissão. Em torno de tudo isso há um crime a ser esclarecido e é sobre esse fundo de investigação que os dois homens se enfrentam. Porque se há crime, existe um culpado e descobri-lo, no fundo, é o fator que move toda a trama.

Tudo isso faz de Tese Sobre Um Homicídio programa acima da média, para adultos inteligentes, esse público que hoje dificilmente encontra uma atração no circuito cinematográfico.

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