Lula manda Gil e Gushiken conversar com artistas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva interveio pessoalmente para conter a crise aberta entre o governo e a classe artística. Por determinação de Lula, os ministros da Cultura, Gilberto Gil, e da Secretaria de Comunicação de Governo (Secom), Luiz Gushiken, deverão reunir-se hoje com um grupo de artistas, no Rio de Janeiro, para tentar um entendimento.A crise foi detonada por uma entrevista do cineasta Cacá Diegues - publicada pelo jornal O Globo, no sábado - na qual o governo era acusado de fazer "dirigismo cultural" ao mudar as regras para as estatais fornecerem patrocínio para projetos artísticos. O diretor de Deus é Brasileiro chegou a afirmar que a atitude do PT lembra a prática da extinta União Soviética, onde obras de categoria duvidosa recebiam patrocínio do Estado simplesmente porque estavam ideologicamente engajadas como determinava o regime.Diante das declarações favoráveis a Cacá Diegues, Lula chamou ontem em seu gabinete os ministros Gushiken e Gil. Determinou que o impasse fosse resolvido o mais rapidamente possível, já que o setor artístico sempre garantiu apoio ao PT. À noite, no Rio, Gil afirmou que a polêmica envolvendo a classe artística e as novas diretrizes das estatais para a concessão de patrocínios não passou de um "mal-entendido". O ministro disse que o encontro com os artistas e, depois, com representantes de estatais, deverá "aparar arestas". Mais: garantiu que, a partir de agora, as políticas da área cultural ficarão a cargo do seu ministério, e não mais sob o controle da Secretaria de Comunicação."Cacá está fazendo o papel de Babá", diz deputadoGushiken, por sua vez, divulgou nota no início da noite sustentando que a Secom não define a política cultural do governo tampouco das empresas estatais. Ele negou que sua secretaria esteja tentando patrulhar a produção artística. "Recusamos a expressão ?dirigismo cultural? atribuída à Secom e utilizada, possivelmente, a partir de uma interpretação equivocada dos fatos e reiteramos que, em nenhuma circunstância, eventuais critérios para a concessão de patrocínios implicam ou implicarão interferência ou restrição a conteúdos da produção cultural".Para o ministro, as recomendações às estatais foram centradas na busca de maior transparência do processo de decisão sobre a aprovação dos recursos. "Não se trata de uma lista de exigências e, sim, de uma sugestão de atitude a ser buscada por patrocinadores e patrocinados", argumentou. O presidente do PT, José Genoino, contou ter levado um documento do setor cultural para Gushiken há dez dias e disse que sentiu disposição do governo para a retomada do diálogo. "Está havendo muito barulho sem razão", afirmou.Na avaliação do deputado Chico Alencar (PT-RJ), titular da Comissão de Cultura da Câmara, o governo não pode confundir zelo com o uso dos recursos públicos com limitação da liberdade de criar. Alencar ressalvou, porém, que há "certo extremismo" de Cacá Diegues ao ver um "dirigismo cultural" nas novas regras. "O Cacá está fazendo o papel do Babá dos artistas", brincou, numa referência ao deputado radical João Batista de Araújo (PT-PA).

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