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Lula e o frango

A essa altura, todo cidadão que se preze já conhece a história do frango. Se há um ponto alto no depoimento do ex-presidente Lula para a Polícia Federal, ocorrido no início do mês, é o momento em que ele descreve uma viagem para Nova York realizada em 2003. 

Vanessa Barbara, O Estado de S. Paulo

21 de março de 2016 | 03h00

Lula afirma que a diária paga pelo governo era muito baixa, de modo que alguns seguranças levaram comida para o quarto do Waldorf Astoria – mais especificamente, frango com farinha. “Eles imaginaram que o cofre era o micro-ondas e colocaram o frango lá dentro, e não conseguiram abrir o cofre, acho que o frango deve estar lá até hoje ou o cara do hotel encontrou o frango”, ele conta, sabe-se lá a troco de quê. O delegado da PF concorda e diz que até hoje não é possível pagar um hotel decente com a verba repassada pelo Poder Executivo.

O depoimento segue nesse tom um tanto amigável e gratuito, como um interrogatório de filme no qual se prepara o terreno para extrair confissões. Ler a íntegra da transcrição, um documento de 109 páginas recentemente divulgado pela imprensa, é uma atividade surreal de lazer que foi executada por muita gente em busca de alívio para a insônia. 

Muitos consideraram o depoimento de Lula uma excelente montagem de uma peça de Teatro do Absurdo, escrita por um autor situado entre Beckett e Stoppard. Em certos momentos, há apenas nonsense, como quando ele diz que o papel do Instituto Lula é “tentar mostrar para as pessoas que é possível pescar”, ou quando confessa ficar “chateado de ver um delegado de Polícia Federal se preocupar com pedalinho”. Diante de um questionamento obscuro, ele diz: “Não entendi a pergunta. Dormiu pouco essa noite?”.

Em linhas gerais, o tédio domina. Uma das indagações feitas pelo delegado é: “Mas o que cansa mais, estar fora do País ou viajar para aquele país?”. A resposta: “Eu acho que o que cansa mais é o avião mesmo, é desgastante”. 

Não estou aqui tecendo juízos de valor sobre o conteúdo, mas afirmando que a transcrição tem inegáveis qualidades literárias. Quem duvidar que recorra a esta cena, que menciona um ex-prefeito petista: “O senhor sabe se o José Fillipi costuma usar um serviço de táxi com o mesmo taxista?”, pergunta o delegado, de forma inesperada. Lula: “Serviço de quê?” Delegado: “Táxi, táxi...”. Declarante: “Eu não sei, querido”. Delegado: “Não sabe se ele anda de táxi?”. Lula: “Não sei”. Delegado: “Sabe se tem algum taxista que é amigo dele?”.

Ou este outro diálogo, travado entre o delegado e um advogado de defesa: Delegado: “Eu só posso fazer perguntas se eu tiver investigando a pessoa sobre quem eu estou perguntando?”. Defesa: “Então, eu acredito que sim”. Delegado: “Não”. Defesa: “Porque a partir do momento que o senhor está fazendo uma pergunta em relação ao advogado, o senhor está investigando o advogado”. Delegado: “Não”. Defesa: “Sim”. Delegado: “Não”. Defesa: “Está”. É quase um esquete do Monty Python.

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