Luiz Ruffato e o sonho do paraíso na metrópole

Escritor lança 'O Livro das Impossibilidades', o quarto dos cinco volumes de sua saga 'Inferno Provisório'

Ubiratan Brasil, de O Estado de S. Paulo,

08 de outubro de 2008 | 10h37

Os dois primeiros volumes apresentaram o espaço e a profundidade do drama. O terceiro intensificou o processo de degradação dos personagens de uma comunidade de imigrantes italianos e seus descendentes no interior de Minas Gerais. Chega agora o quarto volume, O Livro das Impossibilidades (Record), com que Luiz Ruffato continua sua saga Inferno Provisório, projeto com cinco narrativas que reconstrói a história do proletariado brasileiro desde a década de 1950.   "Nesse volume, o entrecruzamento das experiências ‘de fora’ e ‘de dentro’ dos personagens me interessa", conta. "A mim importa estudar o impacto das mudanças objetivas na subjetividade dos personagens." É sobre esse trabalho, para o qual criou uma nova linguagem, expressa com variação de tipologia, que Ruffato participa nesta quarta, 8, às 19h30, no Sesc Vila Mariana (Rua Pelotas, 141), do projeto Sempre um Papo.   Você já disse que a Cataguases das suas histórias é uma Cataguases que não existe. Nos livros que compõem 'Inferno Provisório', no entanto, a forma de contar essas histórias as tornam críveis. Qual o trabalho literário que você enfrenta para materializar essa "inexistência"?   Nascer em Cataguases foi, para mim, um privilégio. Não pela ligação da cidade com as artes de vanguarda - berço do cinema brasileiro, aliada de primeira hora do modernismo paulista, laboratório da nova arquitetura niemeyeriana -, da qual só tomei conhecimento após me mudar de lá, mas pelo seu caráter de cidade industrial (têxteis, metalurgia e papel). As relações sociais nas cidades com economia baseada na agricultura e pecuária são clientelistas e difusas. Mas as relações sociais nas cidades industriais, como Cataguases, são mais claras. Nós não conhecíamos por exemplo, os donos das fábricas, apenas sabíamos seus sobrenomes, eles eram como mitos sem rosto que detinham o poder econômico e político. Entre eles e nós, operários, havia uma classe média, formada pelos diretores das fábricas, profissionais liberais, comerciantes etc. Depois ainda, o lúmpen, marginalizados de uma maneira geral. Portanto, desde cedo nunca tive ilusões a respeitos dos interesses antagônicos que separavam as várias camadas da sociedade. Com o tempo, descobri que a Cataguases e seu entorno eram uma espécie de microcosmo do Brasil: uma sociedade em rápida mudança, que se transformava de uma economia rural em uma economia industrial, com tudo que isso implica, desenraizamento, frustrações, esperanças, violência. O que fiz foi deixar que a minha memória afetiva trabalhasse, reconstruindo a cidade e seus personagens.   Como você planeja a divisão em volumes, uma vez que as histórias se entrelaçam, vão e vêm no tempo e no espaço?   Quando publiquei meu primeiro livro, em 1998, eu já tinha claro esse projeto, mas não sabia como, formalmente, executá-lo. Só descobri após escrever e publicar Eles Eram Muitos Cavalos, em 2001. Então, passei mais quatro anos redimensionando os volumes. Assim, como meu objetivo era discutir o processo de industrialização do Brasil, o primeiro volume, Mamma Son Tanto Felice, retrata o êxodo rural na década de 1950. Tomei, no caso, como ponto de partida, uma pequena comunidade italiana perto de Cataguases, chamada Rodeiro, com sua economia de subsistência e sua falta de perspectiva. O segundo volume, O Mundo Inimigo, passa-se na década de 1960, e flagra alguns desses núcleos que deixaram a roça em Rodeiro e foram tentar a vida como operários na indústria têxtil de Cataguases. Morando num cortiço, percebemos as pequenas tragédias cotidianas, principalmente em função do choque entre as mentalidades rural e urbana, que colocam em campos opostos pais e filhos. No terceiro volume, Vista Parcial da Noite, que abarca as décadas de 1970 e parte da de 1980, esse embate, de costumes, desejos e aspirações, em plena ditadura militar, torna-se mais evidente e a falta de perspectiva do proletariado, numa sociedade com profundos abismos econômicos, empurra-a cada vez mais a procurar saída na imigração para as grandes cidades (São Paulo e Rio de Janeiro). No quarto volume, O Livro das Impossibilidades, já estamos em fins da década de 1980, avançando para a de 1990, em que tratamos do processo de desterritorialização desse imigrante, que mora no Rio ou em São Paulo, mas com essas cidades não têm qualquer ligação, pois não se sente pertencendo a elas e também não pertence mais a Cataguases ou a Rodeiro, pois lá encontra-se apenas um passado idealizado. E, por conta disso, a violência, também filha das diferenças sociais, surge com a força da desagregação social. O quinto volume irá refletir sobre os anos finais do século 20. Evidentemente, essa descrição abarca apenas a superfície da narrativa. É o entrecruzamento das experiências "de fora" e "de dentro" dos personagens o que me interessa. A mim importa estudar o impacto das mudanças objetivas na subjetividade dos personagens. Erigir essa interpenetração da História com as histórias, problematizando também o conceito de romance - como acompanhar a vertigem transformadora dos últimos 50 anos sem colocar em xeque a própria estrutura da narrativa? Assim, cada volume é composto de várias "histórias", unidades compreensíveis se lidas separadamente, mas funcionalmente interligadas, pois que se desdobram e se explicam e se espraiam umas nas outras. Personagens secundárias aqui, tornam-se protagonistas ali; personagens apenas vislumbradas ali, mais à frente se concretizam. E a linguagem acompanha essa turbulência - não a composição, mas a decomposição. A ruína como forma.   Em sua opinião, por que a figura do trabalhador urbano está praticamente ausente da literatura brasileira?   A meu ver, há alguns motivos. Quando alguém, vindo do proletariado, vislumbra a possibilidade de mudança de estrato social, a primeira coisa que faz para ser aceito é tentar esquecer ou apagar o passado. Poucos são aqueles que exibem, sem acanhamento, a sua origem. Outro é que, a rigor, a nossa industrialização ocorre, de maneira mais dramática, a partir do fim da 2.ª Guerra Mundial - embora tenhamos uma classe operária urbana bastante expressiva desde os primórdios do século 20. Ou seja, é relativamente recente. Outro ainda: no Brasil a educação de boa qualidade sempre foi, ainda é, uma exclusividade da elite. Aos operários resta uma educação de má qualidade ou voltada apenas para a especialização técnica. Ora, escrever literariamente exige um grau de sofisticação educacional e cultural normalmente vedada aos operários. Em último lugar, os escritores de classe média, que efetivamente fazem a literatura, parecem romanticamente fascinados pela figura do bandido ou do marginal e nunca se interessaram pelo personagem "sem glamour" do trabalhador urbano...     Uma das grandes vantagens da arte é oferecer diversas ferramentas para se apreender a realidade. Qual a dificuldade que você encontra para fazer o cruzamento da linguagem com outras linguagens artísticas?   Eu tento incorporar aos meus livros a minha época, o que inclui a diversidade de possibilidades de representação por meio da apreensão e readequação das mais distintas linguagens. Interessa-me o teatro, pelos diálogos; o cinema, pelas imagens; as artes plásticas, pela plasticidade e reorientação espacial; o jornalismo, pelo olhar; a publicidade, pela marcação de tempo (o consumo como marca expressional de desejos sociais), os blogs pela várias camadas de leitura possíveis; enfim, tudo que serve para iluminar a narrativa me interessa. E, como escrevo com o corpo, ou seja, todos os meus sentidos estão abertos para captar sensivelmente o que ocorre à minha volta, a minha linguagem, no final das contas, é o corpo...   As palavras fazem mover as coisas? São perigosas as palavras?   Não escreveria se não acreditasse que a literatura, a arte em geral, muda a sociedade. A sociedade é formada por pessoas e, se podemos mudar, por meio da literatura, algumas pessoas, podemos, então, mudar a sociedade.   É um aliado da literatura, o mal?   Não consigo pensar na dicotomia bem-mal. Sei que o escritor, o artista em geral, deve ser sempre um aliado da humanidade.

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