Luiz Fernando Guimarães ataca de Brecht

O que Bertolt Brecht tem a dizer ao público de hoje quando conta uma história de gângsteres americanos dos anos 30 como uma parábola da ascensão de Adolf Hitler? O diretor Moacir Chaves e os atores Luís de Lima e Luiz Fernando Guimarães acham que o recado do dramaturgo alemão, um dos criadores do teatro didático, é fundamental para as atuais gerações e estréiam nesta quinta-feira, no Centro Cultural Banco do Brasil, a peça A Resistível Ascensão de Arturo Ui. O texto é do início dos anos 40, quando Brecht estava exilado na Finlândia fugindo do Nazismo."A referência histórica é apenas um detalhe em ...Arturo Ui, um texto que fala sobre a ascensão do poder, a questão ética e sua influência nas relações pessoais", diz Chaves, que faz sua primeira direção depois de Bugiaria, espetáculo premiado no ano passado e grande sucesso de público. "O texto descreve comportamentos aceitáveis entre instituições, mas que, levados ao convívio individual, são considerados anti-éticos. Apesar da referência a Hitler, não tentamos contar a história do ditador, que todo mundo já conhece, e sim como foi possível seu surgimento."Revisão - A iniciativa dessa montagem foi de Luís de Lima, tradutor desse texto em 1970, numa produção do Teatro de Arena, com direção de Augusto Boal. Agora, ele atualizou a linguagem sem modificar sua estrutura. "Toda peça precisa de uma revisão para adequar a carpintaria teatral. Neste caso, diminuímos as referências temporais, pois Hitler e gângsteres são lembranças longínquas para a garotada de hoje", justifica Lima. Ele conta que sempre foi apaixonado pelo personagem Arturo Ui, mas não teve oportunidade de fazê-lo. Agora, Lima é o ator aposentado que ensina ao personagem principal o gestual do poder. "Encontro referências em atores que estão parados há muito tempo e, de vez em quando, são chamados para grandes participações."Chaves foi convidado por Luís de Lima para dirigir o espetáculo por sua intimidade com a obra de Brecht. O diretor conta que aprendeu alemão para ler o dramaturgo no original e hoje o considera absolutamente atual. "Não é a data de um texto que determina sua atualidade, mas a forma como ele é dito e o assunto de que trata", adverte Chaver. Trazer Luiz Fernando Guimarães para o personagem título foi idéia sua, embora o ator tenha se especializado em humor - e A Resistível Ascensão de Arturo Ui estar muito mais para o drama. "Além de ser um ator excepcional, ele não mente em relação ao que está acontecendo, embora não deixe de lado a teatralidade", explica. "Desse modo ele cativa o público, que se envolve totalmente com sua interpretação."Luiz Fernando confessa seu pouco conhecimento sobre Brecht e, modesto, diz que seu estilo deve-se muito mais à fomação no Asdrubal Trouxe o Trombone, grupo que nos anos 70 revolucionou a cena brasileira e do qual faziam parte Regina Cazé e Evandro Mesquita, que a um preparo acadêmico. "Em todos os meus trabalhos tenho essa característica de entrar e sair do personagem, me comportar como um contador de história. Até porque acredito que todo ator é exatamente isso, um contador de histórias", comenta. "O que estou curtindo muito é voltar a trabalhar com essa turma grande, com gente de diversas formações, novatos e veteranos, todos no mesmo barco."Ele se refere não só a Moacir Chaves, com vasta experiência como ator e poucos (mas bem sucedidos) espetáculos no currículo de diretor, mas também a Oswaldo Loureiro, com quem divide a cena e que tem uma formação mais tradicional, histriônica. Loureiro se divide em dois papéis, o gângster Mulberry e o honesto Dogsborough, ambos antagonistas do perssonagem principal, um político que se julga incorruptível mas que cede às tentações em busca do poder. "É um tema mais que atual, já que estamos vivendo esse impasse hoje em dia", lembra Chaves. "A ética entre as pessoas jurídicas, muito mais maleável, está se estendendo para as pessoas físicas, pois o principal é ter o poder, se dar bem."Luiz Fernando Guimarães destaca ainda a troca de experiências que teve nos dois meses em que vem ensaiando, junto com os 19 atores do elenco. "Não conheço muito teatro e dramaturgia porque leio pouco sobre o assunto, me interesso por outros temas", diz ele. Mesmo assim, o ator está confiante na montagem: "Talvez por não ter muita identificação com Brecht e não me sinta intimidado ao representar um texto dele, um clássico. O que me toca é estar trabalhando sem dor, o que nem sempre é possível em teatro. É essa nossa convivência agradável e prazerosa."

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