Luiz Carlos Merten: papéis e significados em xeque

Dramaturgo, romancista, ensaísta e contista sueco, Johan August Strindberg alimentou-se dos movimentos naturalista e expressionista para construir sua obra literária. Os críticos o colocam no patamar dos maiores autores escandinavos, com Henrik Ibsen, Søren Kierkegaard e Hans Christian Andersen, mas fazem a ressalva - o fracasso de seu primeiro casamento (com Siri von Essen) fez de Strindberg um misógino, e isso transparece em A Menina Júlia, que se tornou mais conhecida como Senhorita Júlia. A peça foi adaptada por Alf Sjöberg, Mike Figgis e Sérgio Silva (rebatizada como Noite de São João). A versão de Sjöberg é famosa por eliminar o flash-back, fazendo com que passado e presente coexistam nas mesmas imagens.

O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2012 | 03h10

Christiane Jatahy apropria-se de Strindberg, mas seu híbrido de teatro e cinema não é Senhorita Júlia. O próprio título indica que ela quer fazer outra coisa. A cena mais importante de Julia é uma frase que Christiane coloca na boca da cozinheira, depois que ela sabe que o motorista, seu amante, fez sexo com a menina Julia. Existe uma ordem no mundo, baseada na submissão dos empregados aos patrões. Que os patrões não se deem respeito, e que os empregados deixem de respeitá-los, é a subversão completa dessa ordem. Qual o próprio papel num mundo que perdeu o sentido?

Isso está na peça, mas não desse jeito. É o tema de Julia e extrapola o pessoal para discutir o papel da arte num mundo em que suportes e mídias - em que as estéticas - implodem. No teatro e no cinema, Christiane Jatahy tem viajado de um para outro e voltado. Existem elementos de cinema em Corte Seco e de teatro em A Falta Que nos Move. Luchino Visconti dizia que seu teatro se alimentava do seu cinema, e vice-versa, mas nunca dessa forma. Existem diretores que incorporam telões e projetam imagens em movimento. A proposta de Julia é mais visceral, a tal ponto que borra os limites e as bordas.

Julia é uma peça filmada ao vivo ou a filmagem reformula a unidade de tempo e espaço associada ao teatro? Julia é certamente mais radical, como concerto (inter)mídias, do que arrastar os espectadores pelo olho da rua em tableaux vivants. O espectador não se mexe, permanece estático no seu lugar, mas o mundo e sua mente, sim, se movem no palco e nos telões.

Strindberg reinventado e reformulado. A luta de classes ganha conformações raciais e sexuais. A menina oferece-se ao preto potente e, como Maria Schneider em Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, resiste mais à violação anal do que ao desejo dele de possuir e comprometer sua mente. A dupla de atores, Julia Bernat e Rodrigo dos Santos, impressiona e ela, além do público, seduz a câmera.

Teatro ou cinema? É uma pena que Christiane Jatahy não tenha forçado a barra propondo Julia à comissão de seleção dos festivais de Brasília e do Rio. Quem sabe no de Tiradentes, cuja Mostra Aurora virou a grande vitrine de invenção do audiovisual no País? Do teatro para o cinema e de volta para o teatro e para o cinema, o percurso, eventualmente, apresenta problemas, mas e daí? O que é novo na arte? O que é profundo? Tudo está no olhar de quem vê. Na era da superficialidade, Christiane Jatahy mostra que o importante é ser complexa.

Crítica de cinema:

Luiz Carlos Merten

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.