Luiz Carlos Barreto expõe fotos no Masp

Quando foi convidado por Gláuber Rocha, em 1963, para fazer a fotografia de Vidas Secas, de Nelson Pereira do Santos, Luiz Carlos Barreto não entendia nada de cinema. "Não sabia nada, mas acabei topando pelo desafio", conta hoje. Quando começou a trabalhar no filme, reparou que a luz do Nordeste era filmada através de filtros. "Era um Nordeste cheio de nuvens, sem a dramaticidade que a adaptação da obra de Graciliano Ramos exigia", conta. Foi então que resolveu ousar. Aposentou os filtros, deixou a luz estourar, a sombra e a luz foram bem marcadas. O que parece hoje uma solução simples significou uma verdadeira revolução para a fotografia do cinema brasileiro. Mesmo assim, Barreto argumenta que foi uma resolução técnica. "Tudo o que fiz foi aplicar ao cinema o que tinha aprendido e feito como fotojornalista", conta o produtor.Essa revolução já havia acontecido antes, na revista O Cruzeiro, de Assis Chateaubriand, na qual Barreto trabalhou como repórter de 1950 a 1966. "Quando comecei a fotografar, em 1952, nosso trabalho sofria muita interferência, tudo era posado, encenado, filtrado. Não concordava com aquele estilo", relembra. Seguindo os passos de Cartier-Bresson, o apóstolo das chamadas imagens à sauvette, Barreto passou a flagrar os fatos sem artifícios. Eram as imagens clandestinas, imprevistas, que procuravam captar o momento decisivo, a essência de uma situação. "Esse modelo me parecia fotograficamente mais honesto, mais interessante do ponto de vista ético e de melhor resultado."A partir de então, com sua câmera Leika em punho, o repórter cearense flagrou desde momentos melancólicos do presidente Jucelino Kubitschek em Paris à Marilyn Monroe depois de ter tomado umas doses a mais de uísque, passando pelo casamento de Grace Kelly. Parte do que testemunhou foi transformada no livro Passagem: A Memória Visual de Luiz Carlos Barreto, que reúne 180 fotos das cerca de 600 clicadas pelo produtor, que será distribuído para convidados e chega às livrarias em três meses. Enquanto isso, 80 fotos selecionadas por Barreto já podem ser conferidas a partir de amanhã no Masp. Reunidas por rimas (e não por temas, como explica Barreto), as fotos revelam, além das personalidades, cenas do cotidiano do País, momentos esportivos memoráveis - como todas as Copas de 1950 a 1962 - e fatos importantes que marcaram a história dos anos 50.As fotos são apresentadas por textos de Caetano Veloso, Arnaldo Jabor, Cacá Diegues, Fernando Gabeira, Roberto Nascimento, Zuenir Ventura, Armando Nogueira, Nelson Pereira dos Santos, Thiago de Mello. Destaque para o poema inédito que Vinícius de Morais escreveu para a seção chamada Amor. "Ele fez há muito tempo, quando viu umas imagens que cliquei de namorados. É especial", relembra.Entre as fotos curiosas, destaca a que "roubou" do duque de Windsor, que não queria ser fotografado. "Disputamos uma verdadeira maratona por Veneza e, quando o alcancei, ele levou as mãos ao alto e disse que só se deixaria fotografar se eu não me aproximasse mais de 3 metros; acabei fazendo um close", relembra.Aos 72 anos, o ex-fotógrafo é um dos produtores mais importantes do cinema brasileiro e está à frente do clã Barreto, responsável por produções expressivas como Dona Flor e Seus Dois Maridos e O Quatrilho. Mas ressalta: "Tudo que sei aprendi em O Cruzeiro, o maior fenômeno editorial do Brasil. O trabalho como repórter fotográfico, com Chatô, foi minha verdadeira universidade, já que não cursei uma faculdade. Pude viajar, conhecer gente, ter uma formação eclética, pois não havia repórter especializado, cobria-se de economia a artes."A velha Laika anda meio esquecida, mas não aposentada. "Agora sou fotógrafo de domingo, meus modelos são minha família."Passagem: A Memória Visual de Luiz Carlos Barreto. De terça a domingo, das 11 às 18 horas. R$ 10,00. Masp. Avenida Paulista, 1578, tel. 251-5644. Até 15/4. Abertura, nesta quinta-feira, às 19 horas para convidados, com lançamento da edição especial do livro que leva o mesmo nome da exposição. Patrocínio: Central de Custódia e de Liquidação Financeira de Títulos - Cetip.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.