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Luís Melo experimenta a arte gestual

Ator se une à companhia franco-brasileira Dos à Deux em 'Ausência', que ocupa o Sesc Ipiranga a partir deste sábado

MURILO BOMFIM, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2013 | 02h11

Quando se lê um livro, à medida que as descrições aparecem e o enredo avança, são construídas imagens na mente do leitor. Cada um imagina o seu Bentinho e a sua Capitu, possibilidades que um filme, por exemplo, não permite. Esta abertura da imaginação está presente em Ausência, que estreia amanhã, no teatro do Sesc Ipiranga. A peça, da companhia franco-brasileira Dos à Deux, expõe a vida de um homem em situação-limite: não há água potável, nem energia elétrica e o ar é escasso na Nova York de 2036 do personagem interpretado por Luís Melo (que integra o elenco da novela Amor à Vida, da Rede Globo). A ausência mais notável, no entanto, é a de vocábulos.

"Por melhor que seja a palavra, você usa aquilo que está por trás dela", diz o ator, que vê, na técnica do teatro gestual, uma grande liberdade de construção da história por parte do público. "Uma palavra pode limitar a expressão daquilo que você está sentindo. É como se ela escondesse, na realidade, um verdadeiro sentimento."

A comunicação por meio da expressão corporal nos palcos é a pesquisa da Dos à Deux desde sua criação, em 1998, quando o carioca Artur Ribeiro e o paulistano André Curti se uniram, em Paris, para criar o espetáculo que deu nome à companhia.

Com sete peças de teatro gestual no currículo - uma a cada dois anos -, Ribeiro viu a técnica se aprimorar. "Nestes 15 anos, o nosso trabalho formou o nosso corpo. Cada personagem criado foi nos formando e cada novo trabalho nos dá um panorama sobre a nossa carreira", diz o artista que, em um momento de maturidade, nota que a virtuosidade gestual e emocional deve superar as preocupações técnicas.

Esta é a primeira vez que os dois criadores da companhia não protagonizam um de seus espetáculos. É também a primeira vez que Luís Melo encena uma peça de teatro gestual, embora tenha tido contato com a arte desde quando vivia em Curitiba.

"Quando eu era estudante do Curso Permanente de Teatro do Guaíra, vi um espetáculo da Pina Bausch, cuja companhia ainda era desconhecida no Brasil. Um universo incrível. Não se sabia se era dança ou teatro. É teatro gestual. É teatro o tempo inteiro", recorda Melo.

O tempo em que foi ator do Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho também o auxiliou a trabalhar a linguagem da Dos à Deux. "As criações do Antunes partiam da performance e tinham uma grande trajetória até a entrada da palavra." O grupo fazia exercícios de como encenar Shakespeare em uma língua inventada, para apurar a preparação técnica.

O flerte de Melo com a Dos à Deux começou em 2000, na primeira turnê da companhia no Brasil. "Sempre me chamou a atenção o domínio técnico e a precisão do trabalho deles." Em uma pesquisa, o ator encontrou o projeto de Ausência, que foi originalmente pensado para André Curti e estava engavetado. "O produtor do Luís Melo nos contatou e, a partir disso, foram cinco meses de ensaios intensos, de até nove horas por dia", conta ainda Ribeiro.

Para Melo, uma das dificuldades do teatro sem falas é lidar com possíveis imprevistos - como problemas técnicos de som e luz - e manter a concentração para executar todos os movimentos com precisão.

Além da coreografia cênica, a música é um componente importante na produção do teatro gestual. Durante uma temporada em Cabo Verde, Ribeiro e Curti conheceram o músico português Fernando Mota, que passou a assinar a trilha de todos os espetáculos da Dos à Deux.

Diretamente de Lisboa, Mota recebe vídeos dos ensaios da companhia para trabalhar nas composições. Ao longo da preparação da peça, o músico faz, em média, quatro visitas a Paris para acertar detalhes. "Desta vez, o desafio foi criar uma música que não passasse a ideia de ficção científica, mas criasse um universo pós-apocalíptico", diz Mota. Ele usou objetos como um tambor de máquina de lavar roupas para criar "sons de indústria" e instrumentos tradicionais portugueses, como a viola braguesa.

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