Luis Crispino
Luis Crispino

Luis Crispino: como a experiência entre a vida e a morte ressignificou seu olhar

A comovente história do fotógrafo renomado que foi entubado por conta da covid, inclusive com sonhos na UTI

Entrevista com

Luis Crispino, fotógrafo

Morris Kachani, Especial para O Estado de S. Paulo

18 de agosto de 2020 | 05h00

Luis Crispino, paulistano nascido em 1956, é um nome conhecido da fotografia nacional, com uma trajetória muito bem-sucedida na publicidade, na moda e nas artes plásticas. Ex-assistente do legendário Miro, a quem tem como mestre, participou de inúmeras campanhas que ficaram famosas nos anos 80 e 90, fotografou editoriais de moda e também para a revista Playboy.

Em março deste ano, percebeu-se portador do vírus. O que era uma “gripezinha” se tornou febre alta, com dificuldade de respirar e muita tosse.

Foram 20 dias entubado na UTI do hospital Albert Einstein, em coma induzido. Depois mais 40, entre a semi-intensiva e o processo de convalescença e recuperação, que se estende até hoje.

O comovente relato do fotógrafo é intermeado pela iconografia de artistas como Francis Bacon e Goya, e registros góticos do final do século 19, nos primórdios da arte fotográfica, que tomaram sua mente de assalto durante o longo tempo de sedação. Nesta entrevista, ele relata como se deu todo este processo entre a vida e a morte, e como esta experiência ressignificou seu olhar.

  • Como foi o seu processo com o vírus?

Diz a lenda que teve um caso no meu condomínio, pode ser que eu tenha pego no elevador. Estávamos no começo de março, naquele período entre o carnaval e o começo da quarentena. Não desconfiava de covid-19. Antes de descobrir, a gente sempre acha que não é nada. Para mim, era apenas uma gripe forte. Os primeiros sintomas foram de febre altíssima e falta de ar. Só que, em 3 dias, eu já tive de ser entubado. A evolução desta doença é muito rápida. Eu estava com muitos calafrios, delirando. Eu perdi a capacidade de respirar totalmente, já no hospital.

  • Você lembra qual foi seu último momento consciente? Antes de ser entubado?

A última lembrança foi trocando uma mensagem com a minha mulher. “Houston, we have a problem”, escrevi. Foi quando me falaram que eu iria para a UTI. E o próximo momento de consciência só veio vinte dias depois.

  • Você não tem nenhuma memória sobre estes dias na UTI?

Acho que se misturam microssegundos de consciência com o que estão fazendo com você, os médicos, e você sonha. Tive muitos sonhos, um mais estranho que o outro. Umas das primeiras coisas que eu fiz quando estava vagamente consciente foi pedir para um enfermeiro anotar os meus sonhos, que eu contei para ele, e me mandar por e-mail.

  • Que sonhos eram esses? Você viu a morte?

Não vi a morte, mas constatei que morrer é muito fácil, é muito simples. É só morrer, porque eu estava desacordado, não vi luz, não vi chamado, não ouvi os anjos, nada. Do jeito que estava, eu iria embora e não ia perceber.

  • Quais são as referências artísticas desse processo que você viveu entre a vida e a morte? Entre o consciente e o inconsciente?

O fato de eu estar entubado, com aquele tubo dentro de mim, me remetia, não sei por que, a aqueles frangos de frigorífico que estão enganchados. Os médicos têm que ficar mexendo em você, manuseando os aparelhos, e eu fiquei com uma imagem meio sinistra deles na minha cabeça, quando estava entubado. Uma cena que remete muito ao que sonhei desacordado é aquele quadro do Goya, com aquele Deus, o Saturno devorando o filho. E o Francis Bacon, aqueles retratos que ele faz, do Papa. Eu via aquelas imagens nítidas.

  • Como foi sua recuperação?

Pior foi a volta. Eu saí 20 quilos mais magro. Você fica com uma série de sequelas pelo corpo todo. Não consegue nem pegar no celular. 

  • As pessoas falam que achavam que você iria morrer. 

Percebo depois um certo renascimento, meus sentimentos ficaram mais profundos. Antes do episódio, eu já tinha uma relação forte com a minha mulher. Depois, fiquei mais apaixonado. E continuo fazendo fisioterapia. Já estou quase 100% recuperado das sequelas.

  • Alguma mensagem para as pessoas em geral?

Cuidem-se. Não se trata de uma “gripezinha”. Dizer isso é uma bobagem. Uma inconsequência. Não pode subestimar. Esta doença pode ser fatal. São mil pessoas por dia. É uma brutalidade. E, você sabe, o grosso das pessoas vai morrer por falta de recurso. Eu tive muita sorte. Fui atendido por uma excelente equipe, em um hospital de ponta.

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