''Lugar sagrado não pode ser comercial''

Rabino da linha liberal, Nilton Bonder critica modismos religiosos e defende comprometimento espiritual.

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2010 | 00h00

Figura admirada entre pensadores e religiosos no País, Nilton Bonder não corresponde ao estereótipo de rabino. Ordenado aos 28 anos, depois de concluir o curso de engenharia nos EUA, o carioca, de fala descontraída, vem buscando espaço para traduzir a cultura judaica milenar "de forma mais acessível para o século 21". Considerado moderno, foi pioneiro na criação de um centro cultural judaico de portas abertas no Rio. E ganhou popularidade quando permitiu que seu best seller, A Alma Imoral, ganhasse montagem no teatro. O monólogo adaptado por Clarice Niskier, em cartaz no Teatro Augusta, é sucesso de público há quatro anos.

Formado na corrente liberal do judaísmo, Bonder é avesso à banalização das tradições e à comercialização da religião: "Alguém dá uma boa aula de cabala, as pessoas vão, amam e esse alguém vira um guru. Não se pode delegar a ninguém esse papel de salvador". Politicamente engajado - dentro e fora da comunidade judaica-, ele integra um grupo convidado pela ONU para discutir soluções para o conflito no Oriente Médio. E é enfático na questão: "Enquanto tivermos essas estruturas políticas, será difícil resolver a situação". A seguir, trechos da entrevista.

Como e por que resolveu escreveu o livro A Alma Imoral?

O texto é ligado com o que eu faço diariamente: ter que decidir entre "forma" e "essência". A modernidade toda diz que é para ficarmos "informais" e olharmos para a essência das coisas.

O sr. se considera um rabino moderno?

Sim. Hoje existem três movimentos nos EUA: o mais reformista, o liberal - no qual eu me formei - e o ortodoxo. Eu vivo exatamente nessa tensão, porque minha vivência acadêmica me aproxima das tradições. Por outro lado, estou ligado à realidade contemporânea. É essa tensão que explicita, para mim, o sagrado.

E como se relaciona com a linha ortodoxa do judaísmo?

A ortodoxia me fascina por ser uma manifestação de contracultura. Acho interessante quem vive fora da unanimidade. Claro que não falo dos radicalismos absurdos. Mas a escolha monástica, que é de ser mais contemplativo, é algo que admiro.

Nesse contexto, o que acha da popularização da cabala e da superexposição desses conceitos na mídia?

Acho que cada um tem o direito de buscar o que quiser. Essa liberdade tem perdas e ganhos, claro. Para mim, o universo espiritual e a comercialização são coisas que não se misturam. O lugar sagrado não pode ser comercial. Outro aspecto que me incomoda é quando alguém dá uma boa aula de cabala, as pessoas vão, amam e esse alguém vira um guru. Não se pode delegar a ninguém esse papel de salvador. E alguns desses movimentos infringem essas duas regras que são fundamentais.

Madonna, por exemplo?

A Madonna não me desagrada. Todas as vezes em que vi ela fazer uma alusão à cabala, sempre foi cuidadosa. Talvez até mais do que as pessoas que estejam transmitindo isso para ela.

Qual é a sua visão sobre a atual situação de Israel?

Há um conflito complexo. Uma escassez de terra e duas identidades ali presentes. Acho que há solução, mas é difícil. Principalmente com os modelos políticos atuais que manipulam o desejo do homem. Essas estruturas não querem se comprometer, não querem "cortar na carne". Se fizer uma enquete a essas duas populações, verá que elas seriam capazes de fazer sacrifícios que, com um pouco de boa vontade e negociação, já seriam suficientes.

Acredita que o conflito possa se resolver?

Esse encontro está marcado. Nunca houve um conflito que não terminasse. Só que a estrutura política não vai permitir isso tão facilmente. O lado israelense sempre terá uma direita que aponta para uma solução mais barata. E o lado palestino terá uma solução mais radical.

E no Brasil, já possui candidato para sucessão presidencial ?

Estou refletindo. Acho que o Lula foi extremamente correto no seu exercício. Até em questões polêmicas como a do Irã- da qual tenho mil ressalvas - o discurso do presidente é corretíssimo: o desejo do diálogo, a tentativa de não demonizar ninguém. Mas, pessoalmente, gosto de alternância. Me incomoda uma candidata ter a celebridade "Lula" por trás. Se Lula ganhar essas eleições, será um roubo porque ele não está concorrendo, entende?

O sr. já foi chamado de "rabino verde". O que acha da candidatura de Marina Silva?

A Marina é tudo de bom. Devemos olhar para as possibilidades dela. Mesmo se não ganhar as eleições, é uma oposição ao PSDB e ao PT. É um outro modelo. Não sei se o Brasil está maduro para isso, mas merece um olhar e ele tem que ser apoiado. Em algum momento, o Lula foi a Marina desse País.

O sr. é também um estudioso do Novo Testamento. Como surgiu esse interesse?

Sempre me interessei. O Novo Testamento revela que as tradições milenares compartilham uma história comum. E é extremamente rico perceber isso.

O que acha dos casamentos entre diferentes religiões?

É uma questão. Nós orientamos e acatamos as pessoas que querem se converter. Hoje em dia, quem se converte tem intenções claras, motivações de formar uma unidade familiar. Há os que conseguem fazer essa aproximação com muita facilidade. Eu não faço casamento misto. Não porque eu ache um absurdo, mas toda identidade escolhe suas convenções. São elas que determinam a territorialidade cultural.

Como vê o futuro da comunidade judaica? Ela pode crescer? Uma das minhas preocupações é, justamente, abrir espaço na comunidade para que ela possa receber novos membros. As portas abertas permitem um crescimento demográfico, um dos problemas dos judeus. Mas não é só isso. É difícil fazer as pessoas se envolverem de verdade. São questões complicadas para uma minoria. Estamos em sociedades livres e, por assimilação, muitos conceitos se perdem. /MARILIA NEUSTEIN

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