Lugar marcado

No avião é incontestável. Apesar de, em alguns voos, rolarem discussões acaloradas em defesa do direito da janelinha.

MARCELO RUBENS PAIVA, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2012 | 03h11

Em estádios de futebol brasileiros as federações tentam, mas não parece fácil. Faz parte da cultura do brasileiro duvidar em coro da heterossexualidade do juiz, dos bandeirinhas, apontar a profissão das mães deles, denegrir a torcida adversária e sentar no primeiro lugar vago.

Recentemente, com a modernização das salas de cinema, o espectador se viu desafiado a escolher o lugar para sentar. No início da implantação, muitos olharam com desdém aquela tela apontada pela bilheteira cheia de poltroninhas desenhadas e duvidaram que a marcação seria respeitada, especialmente durante os trailers.

O espectador também não sabia qual o lugar indicado, se existem lugares ideais para filmes de ação, de arte, brasileiros (sem legenda), documentários ou 3D. E descobriu que, em cada plateia, há uma configuração própria. Escolher o lugar passou a ser mais uma chateação do que uma solução.

No entanto, pouco a pouco, aprendemos a olhar o monitor com poltroninhas, fileiras e espaços e apontar: Este!

***

O programa favorito de Álvaro e Neide: ir ao cineminha domingo no shopping em que se respeita vaga de idoso.

Chegam cedo, compram ingresso com lugar marcado, dão uma volta na livraria mega, compram o melhor colocado na lista de mais vendidos, jantam na praça de alimentação, e de sobremesa levam para a sala duas pipocas grandes e dois refrigerantes gigantes. Como não gostam de comerciais, costumam entrar pontualmente no início do filme.

Álvaro, obcecado e excelente estrategista, costuma escolher lugares no corredor, para facilitar a localização da poltrona, as necessidades diuréticas de Neide e a evasão discreta em caso de filme ruim, da fileira "i".

Para Álvaro, a marcação de lugar foi uma das maiores invenções da indústria de exibição cinematográfica, depois do porta-copos.

No último domingo, surpresa, um outro casal, mais jovem, mais mal-educado, bem mais forte e menos sedentário, estava esparramado no lugar escolhido metodicamente por Álvaro.

Enquanto ambos em pé, no meio do corredor, com as pipocas grandes e os refrigerantes que congelavam as mãos, começaram a protestar, perceberam um absoluto descaso dos oponentes, que pouco a pouco ganhavam a patente de inimigos.

"Desculpe, mas escolho este lugar com antecedência e bastante precisão."

"Não precisa ficar tenso, tiozinho. Por que não senta na fileira de baixo?"

"Por que vocês não vão pra lá?"

"Esquece, Álvaro, tem dois lugares logo ali", disse Neide impaciente com o peso da sobremesa.

Álvaro, como sempre ocorria em situações em que a injustiça e a desonestidade de um Brasil anacrônico, subdesenvolvido e prestabilidade da moeda, passou a ter uma taquicardia, que só conseguia ser controlada por um jeito professoral de resolver situações conflituosas:

"Meu jovem, não seria bom para todos se as regras fossem cumpridas, se as filas fossem respeitadas, se obedecêssemos aquilo que nos é indicado? Numa democracia, existem direitos e deveres. Você tem o direito de se sentar num lugar confortável, já que pagou pelo seu ingresso, e assistir ao filme de preferência, com sua digníssima namorada."

"... ficante!", interrompeu a acompanhante.

"No entanto, o senhor tem o dever, como um bom cidadão, de respeitar o lugar que lhe foi indicado, para o caos não se instalar entre nós."

O primeiro pedido de silêncio foi proferido da fileira traseira. Álvaro olhou para a tela e se certificou de que escolhera como sempre o lugar ideal, já que veria a projeção de frente, sem precisar erguer ou abaixar a cabeça.

"Tio, o filme tá começando. Senta em qualquer lugar!", disse o rapaz.

"Este é o nosso lugar!", disse a menina.

"Não, ele é nosso!", respondeu Álvaro, com os tickets na mão.

"Vem, mor, deixa eles", tentou Neide.

"De jeito nenhum! Se alguém tem que se mudar..."

"Os incomodados que se retirem!", interrompeu a jovem arrogante.

Álvaro não só se irritou com a frase totalmente fora de propósito da acompanhante, ou ficante, como decidiu ignorar os apelos de mulher e iniciar um discurso:

"Num país que sediará a Copa do Mundo e a Olimpíada..."

"...Cala a boca, velho!", gritaram lá de trás.

Neide começou a puxar o marido, equilibrando as pipocas e refrigerantes, enquanto Álvaro levantou a mão com os dois ingressos da fileira "i" e proferiu:

"Vocês não querem acreditar, mas vivemos num novo Brasil!" Respirou fundo e, mesmo com a trilha do filme explodindo em Dolby pelos alto-falantes, como se estivesse num palanque, bradou: " Vejam o caso do mensalão, julgado finalmente pelo Supremo, um marco na história da nossa República..."

Então a vaia foi geral. Alguns começaram a atirar pipocas no casal. Queriam ver o filme e que aquele velho louco, que dizia coisas ininteligíveis sob a música dos créditos iniciais, parasse.

Neide, desesperada, puxou o marido, que se segurou na poltrona, agarrado no braço dela, como se fosse o último bote do Titanic.

Finalmente, o jovem casal, assustado com a irracionalidade daquele velho teimoso, se levantou e mudou de lugar. Se sentou duas fileiras abaixo, em que havia dois lugares vagos.

Vitorioso, exultante e sem ar, Álvaro sossegou. Mal conseguiu prestar atenção no filme, já que refletiu sobre cada palavra. Continuou o discurso na cabeça, de como o Brasil precisa superar a fragilidade das regras, das instituições e a impunidade epidêmica, que só atrapalham o nosso desenvolvimento, empecilhos históricos que nos impedem de dar um salto grande ao futuro, que devem ter tido origem na escravidão, ou na vinda da corte portuguesa, ou nos regimes instáveis e totalitários.

A respiração de Álvaro demorou para voltar ao normal. Nem conseguiu comer a pipoca. Muito menos ouvir Neide praguejar contra a teimosia de marido. Ela passou o filme inteiro dizendo que um dia ele teria um derrame se continuasse na sua missão impossível de reeducar os jovens.

Terminada a sessão, ninguém mais se lembrava do ocorrido, nem mesmo o jovem casal. Apenas Álvaro e Neide permaneceram sentados. Esperaram os créditos finais, a sala se esvaziar e as luzes se acenderem para, enfim, se retirarem sem nenhuma retaliação física ou verbal.

Neide irritada, disse: "Vou ao banheiro".

Álvaro respirou fundo, se levantou, recolheu os copos vazios e só então percebeu, graças à iluminação da sala, que na verdade se sentaram na fileira "k".

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